Existe uma diferença abissal, e quase ninguém parou para pensar nela, entre o objeto que custa caro porque é difícil de fazer e o objeto que custa caro porque é difícil de justificar. O aparelho montado em ouro de dezoito quilates, com diamantes lapidados manualmente e couro de algum réptil ameaçado, pertence categoricamente à segunda espécie. Pague oito milhões por um deles e você não leva para casa um avanço da engenharia humana, leva um amuleto. Um amuleto pesado, frágil, que roda o mesmo sistema operacional do aparelho que o gerente do banco usa para conferir a sua conta corrente.

A confusão entre valor e preço é antiga, e geralmente acomete as civilizações no momento exato em que elas perdem o senso do que importa. Houve uma época, não tão distante, em que o luxo significava domínio técnico inalcançável, o relógio mecânico suíço que media o tempo com precisão sobrenatural, o automóvel italiano cujo motor era esculpido como uma escultura. O preço refletia anos de engenheiros aperfeiçoando algo que ninguém mais sabia fazer. Hoje, o luxo significa colar pedrarias em cima de uma plataforma técnica que custou cento e poucos dólares para fabricar em Shenzhen. É a diferença entre Stradivarius e bijuteria de aeroporto.

Repare na origem dessa indústria de telefones cravejados. Não nasceu nos vales onde se desenha o silício, não brotou nos laboratórios onde a litografia ultravioleta extrema arranca circuitos do limite da física. Nasceu em ateliês de luxo europeus que descobriram, na virada do milênio, que era mais lucrativo aplicar o mesmo verniz de exclusividade que se aplicava a malas de viagem sobre o objeto mais ubíquo da civilização contemporânea. A genialidade do esquema está em fazer parecer artesanato o que é, no fundo, terceirização. O chip vem da Coreia, a tela vem de Taiwan, a alma do produto continua sendo aquela mesma alma anônima fabricada às toneladas. Trocaram a roupa e cobraram o preço de uma alma nova.

O comprador desses objetos não está adquirindo tecnologia, está adquirindo distinção, no sentido sociológico mais barato do termo. É a versão moderna daqueles nobres decadentes do final do antigo regime que mandavam pintar suas carruagens com folhas de ouro enquanto a engenharia das pontes e dos aquedutos era feita por plebeus competentes que ninguém citava nos salões. A diferença é que, naquela época, ao menos a carruagem era inteiramente artesanal. Hoje, a carruagem é Detroit, o ouro é Genebra, e o nobre é um magnata do petróleo do golfo que não distingue uma arquitetura de processador de outra.

Há ainda um detalhe quase cômico nessa história, que poucos comentam. Esses aparelhos, em sua maioria, ficam obsoletos em três anos como qualquer outro. O ouro permanece, os diamantes permanecem, mas o sistema operacional para de receber atualizações, o aplicativo do banco deixa de funcionar, a câmera vira lembrança jurássica diante de qualquer modelo intermediário lançado depois. Sobra um peso morto reluzente, um fóssil banhado a metal nobre. Quem pagou oito milhões herdou um peso de papel caríssimo, e o herdeiro, que provavelmente não pediu nada disso, herdará um problema de seguro.

A lição que sobra é simples e os tempos teimam em repeti-la. Civilização séria valoriza quem faz a coisa funcionar, não quem decora a coisa por fora. Quando uma sociedade começa a confundir o invólucro com o conteúdo, começa também a perder a capacidade de produzir tanto um quanto o outro. O futuro pertence a quem desenha o transistor, não a quem cola brilhante na tampa. E se algum dia o leitor tiver oito milhões sobrando, faça um favor à própria dignidade, compre ações de quem fabrica os chips. Pelo menos esses ainda servem para alguma coisa quando a moda da pedraria passar.

Com informações da Canaltech. A análise e opinião são do O Algoz.