Cinco grandes casas de análise revisaram para cima suas recomendações em ações ligadas à inteligência artificial nesta semana, com ASML, Dell e Nokia entre os destaques. Traduzindo do dialeto de Wall Street para o português dos mortais, isto significa que depois de dois anos vendo as ações triplicarem, os doutores de gravata finalmente perceberam que existe algo chamado IA e correram para colar adesivos de buy em tudo que respira semicondutor. É o tipo de coragem analítica que só se manifesta quando o risco já foi assumido por outros.
Olha, há algo profundamente cômico no espetáculo de bancos de investimento descobrindo tendências tecnológicas com três anos de atraso e cobrando comissão por isso. ASML virou a queridinha porque é a única no planeta que fabrica as máquinas de litografia ultravioleta extrema que produzem os chips de ponta. Quer dizer, ela é monopolista de fato em um gargalo crítico da cadeia global, e os analistas precisaram de meia década e uma guerra comercial entre EUA e China para entender isto. A holandesa não ficou mais valiosa esta semana, ficaram mais visíveis os míopes que não a enxergavam.
Dell e Nokia entram na festa pela porta dos fundos da reciclagem narrativa. Dell, que durante anos foi descrita como a fabricante de PCs em decadência terminal, agora é apresentada como protagonista da infraestrutura de IA porque vende servidores empilhados em data centers. Nokia, que sobreviveu ao próprio cadáver depois de perder o mercado de celulares para a Apple, virou aposta porque suas antenas 5G são consideradas essenciais ao edge computing. Repare no truque: nada mudou nas empresas, mudou apenas o adjetivo que os bancos colaram nelas para vender o mesmo papel pela segunda vez.
Siga o dinheiro e verá o que não está sendo dito. Quem ganha quando cinco grandes casas elevam preços-alvo simultaneamente? Os fundos institucionais que já compraram as ações meses atrás e agora precisam que o varejo entre comprando para sustentar o preço enquanto eles realizam lucro. É a velha dança da saída coreografada, em que o relatório de research funciona como trilha sonora para a debandada elegante dos grandes. O pequeno investidor lê o relatório, acredita que está antecipando o futuro, e na verdade está comprando o passado dos outros.
Tem mais. Toda essa euforia em torno da IA acontece em um ambiente de juros artificialmente baixos historicamente, com bancos centrais que durante uma década inundaram o sistema de liquidez e agora fingem que a bolha que estouraram em ações de tecnologia é fenômeno de mercado livre. Não é. É consequência direta de dinheiro fácil procurando ativo para inflar, e quando o ciclo virar, e ele sempre vira, os mesmos analistas que hoje recomendam compra publicarão peças sofisticadas explicando por que ninguém poderia ter previsto o colapso. Já vimos este filme em 2000, em 2008, em 2022 com as criptos, e veremos de novo.
O que ninguém em terno cinza diz em voz alta é que a verdadeira história da IA não está nos preços-alvo de short-term, está em quem controla os chips, quem controla a energia para rodar os data centers, e quem controla a regulação que decidirá quais empresas podem treinar modelos de fronteira. Esta é a partida real, jogada longe das mesas de operação. Os analistas estão vendendo bilhetes para a corrida de cavalos enquanto o dono do hipódromo decide quem corre. Quando a poeira baixar, o investidor médio descobrirá que pagou caro para participar de um espetáculo cujo desfecho já estava escrito.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.