Há algo de profundamente cômico no brasileiro contemporâneo. O sujeito desembolsa cinco, oito, quinze mil reais numa televisão de painel OLED, instala o aparelho na parede com a solenidade de quem pendura um quadro renascentista, e em seguida o liga direto na tomada da parede, sem estabilizador, sem filtro de linha, sem o menor cuidado com a rede elétrica brasileira que, todos sabemos, oscila como bêbado em noite de eleição. É a metáfora perfeita da nossa relação com a tecnologia. Queremos o objeto sofisticado, mas recusamos a disciplina que ele exige. Compramos a catedral e cuidamos dela como se fosse barraca de feira.

O fato é que a televisão moderna não é mais um eletrodoméstico, é um sistema. Sistema operacional, processador, memória, painel de cristal líquido com retroiluminação, alto-falantes calibrados, conectividade permanente. Tudo isso encapsulado num corpo de poucos milímetros de espessura, suspenso por suportes que muitas vezes são vendidos pelo preço de um almoço executivo. Quem entende um mínimo de engenharia sabe que cada um desses componentes tem inimigos específicos. Calor, poeira, surtos elétricos, umidade, vibração, sol direto, limpeza com produto errado. A diferença entre uma televisão que dura quatro anos e uma que dura doze não está na marca impressa na caixa, está nos hábitos de quem a usa.

Comecemos pela tomada, que é onde mora o demônio. A rede elétrica nacional é um desastre histórico, herança de décadas de planejamento estatal mal feito e manutenção pior ainda. Picos de tensão são rotina, não exceção. Um filtro de linha decente custa o equivalente a duas pizzas e protege um patrimônio de milhares de reais. Um nobreak de pequeno porte, ainda melhor, garante que o desligamento será sempre controlado, nunca abrupto. Curto-circuito interno por surto não tem conserto barato, e em muitos modelos sequer tem conserto possível, porque a placa principal vem soldada como se fosse relíquia sagrada. O fabricante quer que você compre outra televisão, não que conserte a sua.

Em seguida vem o ambiente. Televisão precisa respirar, e o brasileiro tem mania de encaixar o aparelho dentro de móveis fechados, sem ventilação, transformando aquilo numa estufa de componentes eletrônicos. O calor é o assassino silencioso da eletrônica de consumo. Cada grau a mais de temperatura interna reduz a vida útil dos capacitores em proporção exponencial. Suporte de parede bem instalado, com afastamento adequado, é mais barato e infinitamente mais saudável que rack fechado de madeira envernizada. E sol direto sobre a tela é sentença de morte para o painel, ponto final.

Há ainda a questão da limpeza, tema que parece bobo e não é. Pano úmido com água da torneira, álcool comum, multiuso de cozinha, tudo isso ataca a camada antirreflexo do painel e, em poucos meses, deixa a tela com aspecto de espelho rachado. O correto é flanela de microfibra seca, e quando muito, levemente umedecida em água destilada. Custa centavos e preserva milhares. Mas o brasileiro prefere passar Veja Multiuso porque é o que tem na pia, e depois reclama que a televisão importada não presta.

No fundo, a lição é antiga e atravessa séculos. A civilização não se mede pelos objetos que produz, mas pelo cuidado com que os preserva. Os mosteiros medievais copiavam manuscritos à mão e os guardavam em bibliotecas climatizadas, com regras estritas de manuseio, porque entendiam que o objeto sofisticado é fruto de trabalho imenso e merece reverência. Nós, que recebemos pronto o resultado de décadas de pesquisa em semicondutores, óptica e ciência de materiais, tratamos o aparelho como se fosse descartável. E depois nos espantamos com o boleto da próxima compra. A tecnologia é generosa com quem a respeita e implacável com quem a despreza.

Com informações da Canaltech. A análise e opinião são do O Algoz.