A notícia chega quase como anedota esportiva, mas o pano de fundo é um soco no estômago de qualquer um que ainda acredite na promessa industrial brasileira. Uma empresa com sede no Brasil, com seis fábricas operando em solo nacional, gerando emprego, recolhendo a tributação mais hostil do hemisfério ocidental e ainda assim sobrevivendo, decidiu carimbar o nome no uniforme da seleção argentina de futebol. Não da brasileira. Da argentina. Aquela mesma que nos venceu na Copa América, que nos venceu nas Eliminatórias, que se diverte com nossa decadência futebolística enquanto nós nos divertimos com a inflação deles. O patrocínio é legítimo, é inteligente, é estratégia de mercado impecável. O constrangimento é nosso, não da empresa.
Olha, quando uma marca brasileira escolhe expandir vestindo a camisa do rival histórico, ela está dizendo, sem precisar abrir a boca, que o mercado argentino oferece algo que o brasileiro não oferece mais: previsibilidade contratual, retorno de marca mensurável e, sobretudo, ausência daquela intromissão moralista que transformou cada decisão de marketing no Brasil numa audiência pública sobre representatividade, ESG e as vinte e sete pautas da semana. A empresa quer vender camiseta, chinelo, sandália, o que for. E descobriu que vender no exterior é mais barato, mais previsível e politicamente mais leve do que vender no país onde fabrica.
Quer dizer, sigamos o dinheiro um instante. Cada real faturado dentro do Brasil entra numa engrenagem tributária que devora aproximadamente um terço do valor antes mesmo de chegar ao caixa. Cada real faturado em dólar, exportado, com marca reconhecida no continente, escapa de uma porção considerável dessa mordida e ainda traz divisa forte. A empresa brasileira que patrocina os hermanos não está sendo antipatriótica. Está sendo racional. O patriotismo econômico, em país que pune quem produz e premia quem lobiza, vira luxo de quem pode perder dinheiro. E ninguém pode perder dinheiro indefinidamente, exceto o Tesouro Nacional, que tem impressora.
Há ainda a camada cultural, que é a que mais dói. Durante décadas nos vendaram com a história de que o capital nacional precisava ser protegido por barreiras, por subsídios setoriais, por bancos públicos generosos com os amigos do rei e implacáveis com o pequeno produtor. O resultado dessa engenharia social travestida de política industrial está estampado no peito do adversário. Empresas brasileiras de verdade, aquelas que cresceram apesar do Estado e não por causa dele, hoje encontram no exterior o respeito que aqui dentro se reserva ao lobista de Brasília e ao empresário que sabe almoçar no lugar certo.
Me diz uma coisa, o que esse episódio revela sobre o ambiente de negócios que construímos? Revela que o brasileiro produtivo é tratado como suspeito permanente, enquanto o brasileiro conectado é tratado como parceiro estratégico. Revela que vender para fora ficou mais simples do que vender para dentro. Revela que a marca brasileira mais admirada por nossos vizinhos talvez seja justamente aquela que precisou esquecer o mercado interno para prosperar. E revela, sobretudo, que enquanto o discurso oficial fala em soberania nacional, a soberania real, a do capital que escolhe onde florescer, votou com os pés. Ou melhor, com a chuteira. Argentina.
Com informações da InfoMoney. A análise e opinião são do O Algoz.