A Citadel Securities, formadora de mercado fundada por Ken Griffin, distribuiu US$ 9,38 bilhões em remuneração no ano passado, mais do que o dobro do que pagou em 2024, e a média por funcionário ficou em US$ 2,68 milhões. Para efeito de comparação, isso é mais do que Goldman Sachs, Morgan Stanley e JPMorgan pagam aos seus operadores nas mesas de renda variável. Quer dizer, uma firma que não é banco, não capta depósito, não recebe socorro de banco central e não vive de almoço grátis do contribuinte está ganhando dos gigantes acomodados de Wall Street que, vez por outra, batem na porta do Tesouro americano para chorar liquidez.

Olha, o detalhe que ninguém quer encarar é simples: a Citadel Securities não opera com privilégio regulatório, ela opera com tecnologia, risco próprio e velocidade. Quando uma empresa entrega valor real, executa milhões de ordens por segundo, aperta o spread que o investidor paga e absorve risco que ninguém quer absorver, ela é remunerada por isso. Não é mágica, não é sorte, não é "exploração". É a tradução em dólares de um serviço que o mercado livre julgou útil. Cada centavo daqueles US$ 9,38 bilhões saiu do bolso de alguém que escolheu pagar por aquele serviço, voluntariamente, porque considerou que valia mais do que o preço cobrado. Isto se chama troca. O resto é literatura ressentida.

Me diz uma coisa: por que ninguém escreve manchete chorosa quando o BNDES torra bilhão em campeão nacional que quebra na década seguinte? Por que o salário do servidor de tribunal superior, que sai do imposto extorquido à força do brasileiro médio, jamais é chamado de "obsceno", mas o bônus pago voluntariamente por uma firma privada vira escândalo internacional? A diferença é gritante e ninguém quer enxergar. O dinheiro da Citadel é dinheiro que circulou porque alguém quis pagar. O dinheiro do funcionalismo inflado é dinheiro arrancado de quem preferiria ter usado para outra coisa, e essa outra coisa, sendo escolha voluntária, seria por definição mais útil para quem pagou.

Há ainda o ponto que os apóstolos do igualitarismo fingem não ver. Quando Griffin construiu a Citadel Securities, ele não tirou nada de ninguém. Ao contrário, fez o spread cair, fez o custo de execução despencar, fez o pequeno investidor americano pagar menos para comprar uma ação do que jamais pagou na história. O grande ganhador silencioso da existência dessa firma é o sujeito comum que aplica num fundo de pensão e nem sabe que está sendo beneficiado pela competição feroz que Citadel impôs aos bancos confortáveis. A riqueza criada ali não foi extraída do bolso de ninguém, foi gerada do nada, no sentido econômico real do termo, porque o serviço passou a ser melhor e mais barato.

E aqui está a parte que dói no estômago dos comentaristas de jornal: salários assim só existem em países onde a propriedade ainda é respeitada, onde o contrato vale, onde o juiz não acorda de manhã decidindo refazer a economia conforme seu humor. Tente abrir uma Citadel no Brasil. Antes do segundo trimestre, três órgãos reguladores já estarão pedindo "esclarecimentos", o Ministério Público quererá ações afirmativas no quadro de funcionários, alguma comissão parlamentar convocará Griffin para "explicar" os bônus, e a Receita inventará uma alíquota nova que ninguém viu antes. O resultado é que não temos Citadel nenhuma, temos Petrobras, temos campeões nacionais subsidiados, temos bancos estatais que emprestam barato para amigo do rei e cobram caro do empreendedor desconhecido.

O salário do funcionário da Citadel não é o problema. É o sintoma de uma civilização que ainda funciona em algum lugar do planeta, ainda que cada vez em menos lugares. Enquanto isso, por aqui, debate-se se o teto deve ser do ministro do Supremo ou do presidente, como se o problema fosse o teto e não a obscenidade de existir um teto fixado por decreto numa economia que se diz livre. Produtividade não pede licença, e quando o Estado tenta impor licença para ela, ela emigra.

Com informações da InfoMoney. A análise e opinião são do O Algoz.