Pergunte a qualquer senhora de oitenta anos, dessas que criaram seis filhos com salário de pedreiro, o que ela acha de receber dinheiro do governo sem trabalhar. A resposta vem antes de você terminar a pergunta, e vem com um franzir de testa que nenhum doutor da Fazenda consegue reproduzir. Ela sabe, no osso, aquilo que o secretário do Tesouro fingiu desaprender depois do mestrado em Cambridge: que dinheiro não nasce em árvore, que ninguém dá nada de graça, e que casa onde entra mais do que sai acaba tomada pelo banco. Três frases. Três séculos de teoria econômica condensados em três frases ditas enquanto se mexe o feijão.

O fenômeno é curioso e merece exame. A mesma sociedade que ensina ao filho, desde os cinco anos, que de graça até injeção na testa, vota convicta em quem promete tudo de graça aos quarenta. A mesma matriarca que recusa a esmola do vizinho por orgulho aceita pacotes bilionários do governo federal achando que aquilo caiu do céu. Quer dizer, o cidadão é liberal na padaria, conservador no orçamento doméstico, austero quando precisa explicar ao genro por que não vai emprestar mais dinheiro, e milagrosamente vira keynesiano quando o assunto é a Esplanada dos Ministérios. É como se atravessasse a fronteira do bom senso ao cruzar a porta da seção eleitoral.

O truque do Estado provedor é antiquíssimo, e funciona porque se apoia justamente naquilo que se vê e oculta o que não se vê. O cheque do Bolsa qualquer-coisa aparece na conta, fotografável, postável, comemorável. Já a fábrica que não foi aberta porque o imposto comeu o capital, o emprego que não foi criado porque o encargo trabalhista inviabilizou a contratação, o salário que perdeu trinta por cento do poder de compra porque a impressora rodou na calada, isso ninguém vê. Não tem foto. Não tem cerimônia no Planalto. O bem visível devora o bem invisível, e o eleitor aplaude o ladrão por devolver, com pompa, parte do que tirou da carteira dele na noite anterior.

Siga o dinheiro e o feitiço se desfaz. Cada real que o governo distribui passou antes pela boca do moedor: imposto sobre o pão, imposto sobre a gasolina, imposto sobre o imposto, e o resíduo que sobra ainda é desvalorizado pela emissão monetária que financia o resto da farra. O sujeito recebe duzentos reais de auxílio e paga mil em tributos embutidos no carrinho do supermercado, sem nunca ver a conta detalhada. É o golpe perfeito: a vítima agradece o assaltante e ainda acende vela para que ele se reeleja. Sua avó, de novo, teria uma palavra precisa para isso, dessas que não cabem aqui mas todo mundo conhece.

O que se chama hoje de liberalismo, com pose de novidade importada, é apenas o nome culto daquilo que sempre se praticou na economia da casa. Não gastar mais do que se ganha. Desconfiar de quem promete muito por nada. Trabalhar antes de consumir. Poupar para a velhice em vez de esperar que o vizinho banque. Respeitar o que é dos outros. Resolver os problemas no quintal antes de pedir ajuda do prefeito. Tudo isso, que qualquer matriarca de interior pratica como segunda natureza, vira matéria de doutorado quando se traduz para o economês, e vira heresia quando se aplica ao orçamento da União. A diferença entre a sabedoria da cozinha e a insensatez do palácio é que uma sabe quanto custa o gás e a outra acha que pode imprimi-lo.

O socialismo, esse parasita que muda de pele a cada geração, sobrevive porque convenceu o brasileiro de que ele precisa de tutela para coisas que sua bisavó resolvia analfabeta com bom senso e três rezas. Tirou da família a responsabilidade pelo idoso, da paróquia o cuidado pelo pobre, do bairro a vigilância pelo vizinho, e centralizou tudo num Leviatã obeso que cobra caro, entrega mal e ainda exige gratidão. Liberal, no fundo, é qualquer um que ainda não trocou a memória da sua avó pela cartilha do ministro. O resto é só questão de tempo, ou de uma boa conversa na varanda, com café passado no coador de pano, até o sujeito se lembrar de quem ele era antes de o governo lhe dizer quem deveria ser.

Com informações do Instituto Liberal. A análise e opinião são do O Algoz.