Sai mais um estudo de uma escola de administração americana garantindo, com a solenidade de quem descobriu a penicilina, que ter amigos no trabalho aumenta produtividade, retenção e bem estar. A imprensa econômica reproduz a revelação como se fosse achado arqueológico, e o leitor, coitado, ainda agradece a iluminação. Quer dizer, precisamos agora de papers revisados por pares, surveys longitudinais e um professor titular para nos contar que o ser humano é um animal social. A vovó analfabeta do interior já sabia, e cobrava o preço justo: um café e um dedo de prosa.

Olha, o detalhe engraçado é o trajeto. Foram décadas de manuais corporativos tratando o trabalhador como engrenagem, departamentos de recursos humanos enfiando o sujeito em cubículo, consultorias caríssimas projetando open spaces para "estimular sinergia", aplicativos de gamificação, dinâmica de grupo com bolinha colorida, plataforma de feedback 360 graus, e tudo isso para, no fim da linha, redescobrirem que conversar com o colega na cozinha do escritório talvez fosse mais útil que o último framework importado. A montanha pariu o rato, e ainda emitiu nota fiscal.

Me diz uma coisa, quem ganhou dinheiro com a destruição prévia desse vínculo natural? Os mesmos que agora vendem a cura. A indústria do management vive desse ciclo perverso: primeiro convence a empresa de que o ambiente precisa ser racionalizado, otimizado, métrico, frio, cirúrgico, vende metodologia para isso, depois, quando o sujeito está deprimido, isolado e produzindo menos, vende a metodologia inversa, agora chamada de cultura de pertencimento, employee experience, conexão humana. É a mesma engenharia social cobrando duas vezes pelo mesmo terreno, uma para arrasar e outra para reconstruir.

O ponto de fundo é mais sério do que parece. Toda vez que se tenta substituir o que é orgânico, a amizade, a confiança, a lealdade espontânea entre quem divide o mesmo galpão, por sistemas formais e desenhados em sala de reunião, o resultado é caricatural. O laço humano não é entrega programada, é coisa que brota onde há tempo, proximidade, propósito comum e mínima liberdade para o sujeito ser ele mesmo. Burocratizar afeto dá no que sempre deu: equipes performando intimidade no horário do expediente e cínicas no resto da vida.

E há um aspecto cultural que ninguém quer encarar. A geração que foi ensinada que o colega é concorrente, que vínculo é fragilidade, que rede de apoio é coisa de quem não tem ambição, agora descobre, aos trinta e poucos, que solidão escala mal. Os índices de ansiedade, burnout e pedido de demissão silenciosa não vieram do nada. Vieram de décadas tratando o trabalho como transação fria entre estranhos uniformizados, e agora se contrata coach para reaprender o que o portuguesinho do botequim da esquina pratica há cem anos sem precisar de certificação.

No fim, a notícia é boa porque, ainda que pelo caminho mais caro e mais longo do mundo, a obviedade volta a ser admitida. Resta torcer para que, da próxima vez que algum guru de palco quiser reinventar a relação humana via aplicativo com inteligência artificial, alguém na plateia tenha coragem de levantar a mão e dizer que talvez baste deixar as pessoas em paz para fazerem amizade como sempre fizeram. O ser humano não foi feito para ser otimizado. Foi feito para conviver. O resto é planilha.

Com informações do Valor Econômico. A análise e opinião são do O Algoz.