A cena é quase cômica se não fosse trágica. Um economista consegue o privilégio raríssimo de entrevistar um governador do Federal Reserve, a instituição mais poderosa do planeta em matéria de dinheiro, aquela que decide com uma canetada se bilhões de pessoas vão conseguir pagar o aluguel no mês que vem, e o que sai da boca do tal governador? Evasivas. Contradições. Frases feitas que qualquer estagiário de banco central aprende no primeiro dia. Nada de substância. Nada de clareza. Nada que justifique o poder descomunal que essas pessoas exercem sobre a vida de gente que nunca votou nelas e nunca vai poder demiti-las.
E o que isso revela é algo que os defensores do banco central moderno passam décadas tentando esconder debaixo do tapete: não existe ciência por trás da política monetária. Existe chute com gravata. Existe palpite disfarçado de modelo econométrico. Existe um comitê de pessoas, por mais inteligentes que sejam individualmente, tentando adivinhar o que milhões de agentes econômicos vão fazer, quanto vão gastar, quanto vão poupar, como vão reagir a uma mexida de 0,25 ponto percentual na taxa de juros. Quer dizer, pretendem substituir o sistema de preços, que agrega em tempo real o conhecimento disperso de bilhões de pessoas, por uma reunião a portas fechadas de meia dúzia de doutores. É arrogância elevada à categoria de política pública.
Olha, quando você pergunta a um governador do Fed por que a inflação disparou depois da enxurrada de impressão de dinheiro durante a pandemia e ele responde com lengalenga sobre cadeias de suprimento, guerra na Ucrânia, mudança climática e tudo mais que possa desviar a atenção do óbvio, você está assistindo ao velho truque do ilusionista. A mão esquerda aponta para a China enquanto a mão direita aciona a impressora. A inflação sempre e em todo lugar é fenômeno monetário, isso já era verdade quando os romanos adulteravam o teor de prata das moedas e continua sendo verdade agora que os tecnocratas americanos adulteram planilhas digitais. Mas admitir isso seria admitir a responsabilidade, e admitir a responsabilidade seria perder o emprego.
Me diz uma coisa, quem ganha com essa opacidade toda? Siga o dinheiro e a resposta aparece. Bancos que emprestam barato quando o Fed abre a torneira e cobram caro quando fecha. Governos que financiam déficits impagáveis vendendo títulos que o banco central depois recompra com dinheiro criado do nada. Grandes fundos que têm acesso privilegiado às decisões antes delas virarem públicas. Perde quem? O assalariado que vê o salário minguar em poder de compra. O aposentado que guardou a vida inteira e descobre que a poupança não compra mais o que comprava. O pequeno empresário que não tem lobista em Washington nem em Brasília. O esquema é o mesmo em qualquer país, só muda o sotaque do governador.
E o mais revelador dessa entrevista nem são as respostas vagas, é o fato de que um governador do banco central, quando confrontado com perguntas que qualquer aluno de economia austríaca faria no segundo semestre, não consegue articular defesa coerente. Porque a defesa não existe. O edifício inteiro do banco central moderno se sustenta em fé, não em razão. Fé de que alguém, em algum lugar, sabe o que está fazendo. Fé de que o próximo ciclo de expansão e crise vai ser diferente. Fé de que desta vez o planejamento central monetário vai funcionar, embora nunca tenha funcionado em nenhum outro setor da economia nos últimos dois séculos. É religião com terno e gravata, e o sacerdote fala em basis points.
O rei está nu, e quem aponta o dedo é chamado de radical. Mas radical mesmo é achar que um comitê fechado de burocratas não eleitos deve ter poder sobre a moeda de uma nação inteira. Radical é aceitar que a maior transferência de riqueza da história, dos que produzem para os que têm acesso privilegiado ao crédito barato, aconteça todo dia, sem debate, sem voto, sem prestação de contas real. O dia em que a cortina cair de vez, e ela vai cair, a pergunta não vai ser por que demorou tanto. Vai ser por que a gente fingiu por tanto tempo que havia algo de científico ali dentro.
Com informações da Mises Institute. A análise e opinião são do O Algoz.