Existe um truque intelectual muito antigo e muito eficaz: pegar uma palavra do passado, insistir que ela sempre significou o que significa hoje, e usar essa confusão para reescrever a história a seu favor. É exatamente o que aconteceu com o termo "currency" na América colonial, e entender esse deslize semântico não é exercício de erudição gratuita. É arqueologia da servidão.

Quando os colonos americanos dos séculos XVII e XVIII usavam o termo "currency," não estavam falando do que você encontra hoje na sua conta bancária ou no seu bolso. A palavra vinha de "current," corrente, aquilo que circula, aquilo que é aceito, aquilo que flui de mão em mão com o consentimento tácito das partes. Podia ser tabaco certificado na Virgínia, wampum nas colônias do Norte, letras de câmbio privadas em Boston, ou qualquer instrumento que a comunidade comercial houvesse aprendido, por tentativa e erro, a aceitar como meio de troca confiável. Nenhuma autoridade central decretou esse processo. Ele emergiu como emergem todas as coisas que funcionam: de baixo para cima, pela repetição, pela experiência acumulada, pelo interesse de quem precisava trocar bens sem carregar ouro o tempo todo.

O problema, para o historiador mal-treinado ou para o economista moderno que leu mais burocracia do que história, é que eles chegam a esse passado com os óculos do presente. Leem "currency" e enxergam automaticamente o papel impresso por um banco central sob autoridade soberana. E aí o passado inteiro se deforma. As colônias parecem ter tido um sistema monetário primitivo e caótico, quando na verdade tinham um sistema monetário orgânico e funcional. O caos estava em outro lugar: estava nas tentativas dos governos coloniais de emitir papel sem lastro, que invariavelmente geravam inflação, desconfiança e crise. O mercado funcionava. O Estado atrapalhava. Como sempre.

Essa inversão de sentido não é acidente. É o tipo de coisa que acontece quando uma instituição conquista o monopólio de cunhar tanto o dinheiro quanto as palavras que o definem. Hoje, "moeda" significa aquilo que o governo emite. "Dinheiro" é o que o banco central autoriza. Qualquer alternativa é chamada de "informal," de "paralela," de "ilegal," quando na verdade é apenas anterior, mais honesta e mais espontânea. O colono virginiano que aceitava um recibo de tabaco como pagamento de dívida estava fazendo algo economicamente sofisticado, não algo primitivo. Estava usando um ativo real, com valor verificável, emitido por uma rede de confiança construída na prática comercial. Nós é que regredimos ao aceitar que uma promessa impressa por um comitê de burocratas seja "dinheiro real" e o tabaco seja mera "commodity."

A linguagem é o campo de batalha primário de qualquer transformação política profunda. Antes de confiscar a propriedade, redefine-se "propriedade." Antes de destruir a família, redefine-se "família." E antes de monopolizar o dinheiro, redefine-se "moeda." A história colonial americana, lida com cuidado e sem anacronismo, mostra que os seres humanos são perfeitamente capazes de criar sistemas monetários funcionais sem precisar de um banco central, de uma moeda fiduciária ou de um decreto governamental. Essa história precisou ser enterrada, distorcida ou chamada de "primitiva," porque sua mensagem é incômoda demais para o arranjo atual: a gente não precisa deles. Nunca precisou.

Toda vez que alguém lhe disser que "sempre foi assim," desconfie. Quem controla o dicionário controla a memória, e quem controla a memória controla o que você acha possível.

Com informações do Mises Institute. A análise e opinião são do O Algoz.