O governo americano acordou esta semana para lembrar os contribuintes de que a temporada fiscal de 2025 tem "novidades que podem economizar dinheiro". Lindo. O que o comunicado oficial não diz, por razões óbvias, é que boa parte dessas "novidades" é simplesmente a reversão de armadilhas que o próprio governo havia armado alguns anos antes. Devolve-se com pompa o que foi tirado sem alarde. A imprensa aplaude. O contribuinte esquece. O ciclo continua.
Comecemos pelo episódio mais revelador, embora menos comentado. Em 2021, o Congresso americano costurou dentro de um pacote de gastos de emergência uma cláusula que reduzia o gatilho de notificação fiscal para plataformas de pagamento, como PayPal, Venmo, Etsy e eBay, de 20 mil dólares e 200 transações para míseros 600 dólares, sem limite de transações. Traduzindo: se você vendeu um sofá usado no Facebook Marketplace por 620 dólares, a plataforma seria legalmente obrigada a reportar sua atividade ao IRS. A lógica era simples e o alvo era claro: expandir a rede de vigilância fiscal sobre a economia informal, sobre o pequeno vendedor de fim de semana, sobre quem troca serviços por fora do sistema bancário tradicional. Não havia eufemismo possível, era um dragnet fiscal de dimensões inimagináveis. Agora, depois de anos de protestos e adiamentos consecutivos, o limiar voltou para 20 mil dólares. O governo anuncia isso como benefício. O correto seria anunciar como recuo envergonhado.
O segundo capítulo é o crédito fiscal para veículos elétricos, aquele abatimento de até 7.500 dólares na compra de um carro elétrico novo, ou 4.000 dólares para usados. Esse crédito foi encerrado no fim de setembro de 2025, e a temporada atual é a última oportunidade de aproveitá-lo para quem comprou dentro do prazo. Siga o dinheiro: quem comprava carros elétricos qualificáveis nos últimos anos? Famílias com renda de até 150 mil dólares anuais para solteiros, até 300 mil para casais. Isso não é classe trabalhadora. Isso é a classe profissional urbana de renda alta que optou por um Tesla ou um BMW elétrico e recebeu do contribuinte mediano, que dirige um Honda Civic 2017, um subsídio de quase oito mil dólares. A falácia que sustentou o programa era a de que o "incentivo verde" beneficiaria a todos ao acelerar a transição energética. O que de fato ocorreu foi a transferência de renda do contribuinte comum para o consumidor sofisticado, embrulhada em papel ecológico com laço azul.
Vale notar, ainda, a estrutura bizarra do crédito: por anos, o comprador precisava esperar o ajuste de imposto de renda para ver o benefício. O governo gastava dinheiro para criar um programa e depois tornava o resgate do programa intencionalmente inconveniente. A correção recente, que permite aplicar o crédito diretamente no concessionário no momento da compra, foi saudada como inovação. Não é inovação. É o governo finalmente parando de usar a burocracia como obstáculo para o próprio benefício que ele mesmo prometeu. O que diz isso sobre a qualidade da engenharia original do programa? Diz tudo.
E aqui está o nó de tudo isso: a conversa sobre "novidades que economizam dinheiro" pressupõe que o sistema fiscal é um ambiente neutro onde o governo, de tempos em tempos, encontra formas criativas de ser generoso com você. A realidade é que o sistema fiscal é um campo de batalha permanente entre o Estado que quer extrair mais e o contribuinte que tenta manter o que é seu. Cada "crédito" é um abatimento parcial sobre um imposto que talvez não devesse existir na magnitude em que existe. Cada "limiar elevado" é a reversão de uma garra que avançou demais. A gratidão pelo crédito do carro elétrico é a gratidão do sequestrado que agradece ao captor por não amarrar tanto as mãos.
Então, sim, aproveite o crédito se você comprou o carro dentro do prazo. Fique aliviado com o limiar do 1099-K se você vende coisas usadas pela internet. Mas não confunda o alívio com a bondade do sistema. A mão que devolve a migalha é a mesma que mantém a padaria. Enquanto a narrativa for "o que o governo pode me dar nessa temporada fiscal", a pergunta certa não estará sendo feita.
Com informações do Wall Street Journal. A análise e opinião são do O Algoz.