Toda vez que um governo resolve que pode fechar um pedaço do oceano, o mercado faz a mesma coisa que a água faz quando você tenta segurar com as mãos: escorrega por entre os dedos. Dois petroleiros carregados de combustível saíram do Golfo Pérsico pela rota mais improvável disponível, navegando rente à costa iraniana, distantes o suficiente das águas "bloqueadas" para que nenhum almirante americano consiga justificar um incidente. O bloqueio americano ao Estreito de Hormuz, anunciado com a solenidade característica de quem acredita que decretos dobram a realidade, durou o tempo suficiente para que dois navios-tanque provassem que não.
Hormuz não é qualquer pedaço de mar. Por ali passa aproximadamente um quinto de todo o petróleo consumido no planeta, o que significa que qualquer idiota com autoridade suficiente para fechar aquele corredor de 54 quilômetros de largura está essencialmente com a mão no interruptor da economia global. Impérios foram construídos com menos alavancagem. O problema com alavancagem tão brutal é que ela funciona nos dois sentidos: quem a usa para pressionar descobre, invariavelmente, que também pressionou a si mesmo. Os preços do combustível não sobem apenas em Teerã quando Hormuz fecha. Sobem em Detroit, em Berlim, em São Paulo, nas cadeias logísticas que nenhum almirante controla e nenhum porta-aviões consegue substituir.
Siga o dinheiro e você entende tudo. Um bloqueio americano ao Estreito de Hormuz beneficia, de imediato, os produtores que exportam por rotas alternativas: o petróleo do Atlântico Norte, o GNL americano, os oleodutos que desviam pelo território turco. Coincidência notável que a medida chegue num momento em que as exportações americanas de energia buscam mercados que o petróleo persa ocupa. Não estou dizendo que é um cálculo deliberado. Estou dizendo que quando você quer entender uma política externa, é útil perguntar quem fatura enquanto os outros sofrem, e as respostas costumam ser mais reveladoras do que qualquer conferência de imprensa.
Os iranianos, por sua vez, não são ingênuos quanto à geometria do conflito. A costa iraniana no Estreito funciona como um corredor de sombra, uma zona cinzenta onde navios podem transitar com argumento jurídico suficiente para complicar qualquer interceptação. Não é coragem dos armadores, é cálculo. Armadores não são heróis, são homens com balanços patrimoniais e seguradoras que pedem laudos de risco. Se dois navios calcularam que a rota pela costa iraniana é viável, é porque alguém fez a conta e concluiu que o risco de apreensão americana é menor do que o prejuízo de manter a carga parada. O mercado está precificando a determinação americana em tempo real, e o resultado inicial não é lisonjeiro para Washington.
Há um padrão histórico que os impérios adoram ignorar: o bloqueio funciona quando é total, quando a força é irresistível e quando o custo político de mantê-lo é suportável. Quando qualquer dessas três condições falha, o bloqueio vira espetáculo, e o espetáculo tem custo. Napoleão tentou fechar a Europa ao comércio britânico. O resultado foi contrabando industrializado, aliados furiosos e uma campanha na Rússia que não precisava ter acontecido. A história das sanções e bloqueios modernos é, em larga medida, a história de mercados encontrando rotas alternativas enquanto a população civil paga o preço e os governos anunciam vitórias que não existem. Dois navios saindo por Hormuz colados à costa iraniana é o primeiro capítulo desse livro, não o último.
O que acontece a seguir depende de uma pergunta simples que Washington deveria ter respondido antes de anunciar o bloqueio: você está disposto a afundar um navio mercante carregado de combustível, com a câmera do mundo inteira apontada para o Golfo Pérsico, para provar que o decreto é sério? Se a resposta for não, o bloqueio já acabou. Se a resposta for sim, o preço do barril amanhã de manhã vai fazer as manchetes de hoje parecerem anedota.
Com informações da Bloomberg. A análise e opinião são do O Algoz.