Existe uma ironia cruel no centro da chamada "disputa estratégica" entre Ocidente e China pelas terras raras: os mesmos governos que passaram décadas pregando livre mercado, eficiência privada e globalização como evangelhos econômicos são hoje os maiores defensores de intervenção estatal, subsídio industrial e protecionismo para tentar recuperar um terreno que eles próprios abandonaram. O problema não começou ontem. Ele foi construído parafuso por parafuso, decreto por decreto, ao longo de trinta anos de miopia estratégica disfarçada de sofisticação econômica.
Terras raras não são raras no sentido geológico. O neodímio, o disprósio, o lantânio e seus primos estão espalhados por depósitos em todos os continentes. O que é raro, e brutalmente escasso, é a capacidade de processá-los, refiná-los e transformá-los nos componentes que movem motores de veículos elétricos, sistemas de guiamento de mísseis, painéis solares, semicondutores e toda a parafernália tecnológica que o século XXI chama de futuro. E essa capacidade, o Ocidente jogou fora. Não por sabotagem externa, não por conspiração geopolítica, mas pela razão mais banal possível: o processamento de terras raras é ambientalmente sujo, trabalhoso e pouco rentável no curto prazo. As regulações ambientais americanas e europeias tornaram o negócio inviável domesticamente. A China, que não se preocupou com nenhum desses inconvenientes, ficou com o mercado inteiro. Foi uma escolha. Agora é uma crise.
Siga o dinheiro e você encontrará a estrutura do problema. Quem lucrou com a terceirização da cadeia produtiva para a China? As mesmas corporações ocidentais que hoje financiam lobbies por "política industrial nacional" e "reshoring estratégico". As margens eram maiores quando a produção era chinesa, a mão de obra era barata e as externalidades ambientais ficavam do outro lado do Pacífico. Agora que o preço geopolítico chegou, os mesmos empresários que comemoraram a globalização sem reservas aparecem diante dos parlamentos pedindo subsídios, tarifas e programas estatais de reindustrialização. O lucro era privado. O problema ficou público. Isso tem um nome, e não é capitalismo.
A resposta ocidental à dominância chinesa é pedagogicamente reveladora. Os Estados Unidos aprovaram legislações bilionárias para subsidiar a produção doméstica de minerais críticos. A União Europeia criou o "Critical Raw Materials Act" com metas, cotas e planejamento de longo prazo que fariam corar qualquer planejador soviético com senso de humor. A Austrália, o Canadá, o Japão, todos na mesma direção: o Estado entrando pesado para corrigir o que o mercado "falhou" em resolver. Mas o mercado não falhou. O mercado entregou exatamente o que os preços e os incentivos pediam. Foram os governos que criaram os incentivos errados, as regulações proibitivas, os horizontes curtos. Agora usam o cofre coletivo para consertar a conta que eles mesmos geraram. Não existe almoço grátis, mas existe, evidentemente, o contribuinte que paga a conta sem ter pedido nada do cardápio.
O paradoxo maior é que o Ocidente, ao adotar o remédio do intervencionismo estatal para competir com a China, está concedendo ao adversário uma vitória conceitual que vale mais do que qualquer tonelada de neodímio. Não é mais uma disputa entre um modelo de liberdade econômica e um modelo de controle central. É uma disputa entre dois modelos de controle central, com a diferença de que um deles ainda precisa se fantasiar de livre mercado para a audiência doméstica. A cerca de Chesterton se aplicaria aqui com precisão cirúrgica: antes de desmontar o sistema de preços como mecanismo de alocação de recursos estratégicos, seria sensato perguntar por que ele existia. A resposta é que nenhum comitê, em Washington ou Bruxelas, possui o conhecimento disperso entre milhões de agentes para saber onde, quanto e como produzir o que a civilização vai precisar daqui a vinte anos. A China apostou no planejamento e ganhou a primeira rodada. A conclusão que o Ocidente tirou disso foi planejar mais. A lógica seria cômica se as consequências não fossem tão sérias.
Há um dado que os relatórios governamentais mencionam discretamente e a mídia convencional prefere não enfatizar: o litânio, o cobalto e as terras raras que alimentam a "transição energética" verde, aquela mesma que os governos ocidentais tornaram política oficial e subsidiaram com trilhões, são extraídos em condições que fariam qualquer ambientalista corar, em países onde sindicatos não existem, regulações ambientais são ficção jurídica e trabalho infantil ainda é realidade. O Ocidente virtuoso financia, com suas tarifas de energia e seus subsídios a painéis solares, uma cadeia produtiva que reproduz exatamente os males que diz combater, só que convenientemente fora do campo de visão das câmeras. O que se vê é o painel solar no telhado. O que não se vê é a mina no Congo e o porto em Shenzhen. A destruição do emprego industrial americano e europeu que tornou tudo isso possível também não se vê. Essa é a natureza de toda conta que não se quer pagar na hora, mas que invariavelmente vence.
Com informações do Instituto Liberal. A análise e opinião são do O Algoz.