A cena se repete do interior da Virgínia ao subúrbio de Phoenix, e já começa a se desenhar em Camaçari e no entorno de Hortolândia. Chega a notícia de que um galpão sem janelas, do tamanho de um shopping, vai se instalar a oitocentos metros da escola, da igreja e da casa que o sujeito comprou há trinta anos imaginando ouvir grilo à noite. O barulho dos chillers é de turbina de avião em marcha lenta, vinte e quatro horas por dia. A conta de luz da região sobe porque a operadora precisa reforçar a subestação. O lençol freático, em algumas localidades, vira refrigerante industrial. E aí o cidadão descobre que não tem absolutamente nada a dizer sobre isso, porque quem decidiu foi uma comissão de zoneamento que recebeu o lobista da big tech numa quarta-feira de manhã, enquanto ele estava no trabalho.

O reflexo imediato, e errado, é pedir proibição. Banir data center, criar moratória, decretar que cidade tal não receberá mais nenhum. É a típica reação de quem nunca leu nada de economia e acha que a solução de um problema causado pelo Estado é mais Estado. O reflexo oposto, igualmente errado, é o do tecnófilo de LinkedIn que sai dizendo que reclamar de data center é ser contra o progresso, como se progresso fosse uma divindade abstrata diante da qual o direito de propriedade de um sujeito que mora ali há trinta anos não valesse coisa nenhuma. Os dois lados estão errados pela mesma razão: ignoram que existe uma terceira via, antiga, óbvia, e que justamente por ser óbvia foi soterrada por décadas de planejamento urbano de gabinete.

Essa terceira via se chama direito de propriedade levado a sério. Quer dizer, se o ruído do seu galpão atravessa a cerca e invade meu quintal, isso é invasão, exatamente como se você tivesse jogado lixo no meu jardim. Se a sua sucção de aquífero seca o poço do fazendeiro a dois quilômetros, isso é furto de um recurso que ele explorava antes de você chegar. Se a sua demanda elétrica força a concessionária a repassar custo de infraestrutura para todos os consumidores da região, isso é socialização de custo privado, e tem nome feio na literatura econômica séria. A solução não é proibir o data center nem permitir tudo, é fazer com que ele pague, negocie, indenize, e que o vizinho tenha um foro real para cobrar.

Só que esse foro foi destruído. Foi substituído pela audiência pública decorativa, pela licença ambiental que vira balcão de barganha política, pelo zoneamento que serve para empresário com advogado bom e atrapalha cidadão com advogado de bairro. Siga o dinheiro e a coisa fica límpida. Estado oferece incentivo fiscal bilionário para atrair a hyperscaler, a hyperscaler doa para a campanha do governador, o governador nomeia o secretário que assina o licenciamento expresso, a conta de água sobe para o consumidor residencial, a conta de luz sobe para a indústria local, e o vereador que tentou exigir compensação para os moradores é chamado de inimigo do desenvolvimento na manchete do jornal de domingo. Não é livre mercado, é capitalismo de compadrio com verniz de modernidade.

O que se vê é o data center reluzente, o anúncio do investimento de doze bilhões, o ministro cortando a fita. O que não se vê é o pequeno produtor que perdeu pressão no poço, o aposentado que tomou enxaqueca crônica do zumbido, a oficina do bairro que fechou porque o quilowatt-hora ficou impagável, e, sobretudo, o contrato que nunca foi assinado entre vizinhos porque o Estado se intrometeu para dizer que aquilo não era assunto deles. A revolução da inteligência artificial é real, a demanda por capacidade computacional é genuína, e nada disso precisa ser combatido. O que precisa ser combatido é a fantasia de que existe almoço grátis, de que um galpão de oitenta megawatts não impõe custo a ninguém, e de que o burocrata de Brasília ou de Washington sabe melhor do que o sujeito que mora na quadra qual o preço justo de tolerar uma turbina ao lado da janela do seu filho.

O remédio é antigo e desagradavelmente simples para quem vive de complicar. Restabelecer o direito do vizinho de processar pelo dano concreto, acabar com o blindagem regulatória que protege a big tech de responder pelas externalidades, eliminar o subsídio que distorce o cálculo econômico de onde instalar o galpão, e devolver a decisão para onde ela sempre pertenceu, que é o contrato voluntário entre proprietários adultos. O resto é discurso. E discurso, nessa matéria, costuma ser apenas a fumaça que esconde quem está embolsando o dinheiro enquanto o cidadão paga a conta sem nem saber que assinou embaixo.

Com informações do Mises Institute. A análise e opinião são do O Algoz.