Quênia, 2014. O governo emite um eurobond de dois bilhões de dólares no mercado internacional, promete avenidas, hospitais, ferrovias, modernização. Uma década depois, ninguém sabe exatamente onde o dinheiro foi parar, as obras prometidas existem mais nos relatórios oficiais do que no asfalto, e os políticos que assinaram a operação curiosamente ostentam um padrão de vida que o salário público jamais explicaria. Os auditores se atrapalham, as contas não fecham, as comissões parlamentares se dissolvem em fumaça burocrática, e o caso vira aquilo que todo escândalo de Estado vira no fim: estatística, nota de rodapé, palavra cruzada para historiador entediado resolver daqui a vinte anos.
Quer dizer, o roteiro é tão conhecido que dá tédio descrever. Governo capta dinheiro fora, sob a justificativa nobre do desenvolvimento, paga juros que o contribuinte vai honrar durante uma geração inteira, e o recurso evapora num labirinto de empresas de fachada, consultorias fantasmas, licitações desenhadas para vencedor único e intermediários que aparecem do nada com escritório em paraíso fiscal. Quando alguém pergunta onde está o dinheiro, a resposta é sempre a mesma sinfonia: foi alocado, foi investido, foi destinado, foi reprogramado. Verbos no passivo, sujeito oculto, responsável inexistente. É a gramática oficial do roubo legalizado.
Olha, a pergunta que destrava o caso é uma só, e ela vale para o Quênia, para o Brasil, para a Argentina dos Kirchner, para a Venezuela do petróleo, para qualquer canto onde o Estado capta e o povo paga. A pergunta é: quem ficou rico? Siga o patrimônio dos signatários do contrato, dos ministros que viajaram para Londres negociar, dos diretores das estatais envolvidas, dos primos, dos cunhados, das esposas que abriram boutique de luxo no ano seguinte. Se o servidor público que recebia o equivalente a dez mil dólares por ano agora tem fazenda, helicóptero e conta na Suíça, o eurobond não sumiu, apenas mudou de endereço.
E aqui mora o detalhe que a imprensa econômica respeitável jamais menciona, porque mencionar é perder convite para coquetel de banco. Toda dívida pública é, na essência, um mecanismo de transferência de riqueza dos contribuintes futuros para os intermediários presentes. O banco que estrutura a emissão cobra sua fatia. O escritório de advocacia que redige o prospecto cobra sua fatia. A consultoria que avalia a viabilidade cobra sua fatia. O político que aprova cobra sua fatia, geralmente em forma de campanha eleitoral generosamente patrocinada ou, em casos mais grosseiros, em malas. O cidadão queniano que mal tem água encanada vai pagar juros até 2034 para que esse arranjo continue de pé. É o capitalismo de compadrio com bandeira do FMI tremulando ao vento.
Me diz uma coisa, quando o Estado quebra um país em nome do desenvolvimento, qual é a diferença prática entre isso e uma quadrilha armada que assalta um banco? A quadrilha armada pelo menos opera com risco. Pode levar bala, pode ir presa, pode morrer. O político que estrutura o eurobond opera com imunidade parlamentar, foro privilegiado, comissão de inquérito comandada pelos próprios colegas e, ao fim do mandato, uma fila de palestras pagas em mil dólares o minuto. O bandido comum tem coragem. O bandido institucional tem advogado.
O que o caso queniano revela, no fundo, é que a destruição criativa do mercado, aquele processo selvagem em que empresas ruins quebram e dão lugar a melhores, jamais alcança o setor público. O burocrata corrupto não falha, ele é promovido. O ministro que perdeu dois bilhões vira embaixador. A empresa estatal que evaporou recursos é recapitalizada com mais imposto. Não existe Schumpeter dentro do palácio do governo, existe apenas o ciclo eterno em que o malfeito de hoje vira o cargo de amanhã, e a conta segue chegando para o sujeito que acorda às cinco da manhã para pegar dois ônibus. Cui bono? Eles. Sempre eles. E enquanto a pergunta não for feita em voz alta, com nome, sobrenome e CPF, o próximo eurobond já está sendo assinado em algum gabinete com vista para a baía.
Com informações da Mises Institute. A análise e opinião são do O Algoz.