Um dos maiores gestores de renda fixa da Índia olhou para o mercado de títulos soberanos, viu yields batendo 7,4% a 7,5% no longo prazo, e disse o que todo mundo com dois neurônios funcionais deveria estar dizendo: o risco inflacionário está sobrevalorizado. A inflação indiana em março ficou em 3,4%. Três vírgula quatro. A meta do Reserve Bank of India é 4%. Quer dizer, o país está abaixo da própria meta de inflação e o mercado está precificando como se Nova Delhi estivesse prestes a virar Buenos Aires. Não está. E quem sabe ler números em vez de manchetes já percebeu isso.
O pânico tem endereço e data de nascimento: a guerra no Irã, iniciada em fevereiro, empurrou o barril de petróleo de 69 para 113 dólares em um mês. A Índia importa noventa por cento do petróleo que consome, e metade desse volume transita pelo Estreito de Ormuz, que virou zona de risco. Investidores estrangeiros venderam algo como 211 bilhões de rúpias em títulos do governo indiano desde o começo do conflito. A rúpia bateu mínima histórica, a 94,79 por dólar. O medo, como sempre, fez o serviço que a realidade ainda não fez. E nessa diferença entre o medo e o fato concreto mora o dinheiro.
Olha, existe uma diferença enorme entre um risco que pode se materializar e um risco que já se materializou. O petróleo subiu, sim. A energia ficou mais cara, sim. Mas a inflação núcleo permanece comportada, o banco central manteve a taxa repo em 5,25% com postura neutra, e as projeções mais pessimistas, incluindo as do próprio RBI, falam em média de 4,6% para o ano fiscal, com pico de 5,2% no terceiro trimestre. Isso não é hiperinflação. Isso não é nem inflação alta. Isso é um susto precificado como se fosse terremoto. Quem confunde tremor com cataclismo perde dinheiro para quem sabe distinguir os dois.
Me diz uma coisa: quando foi que o mercado financeiro deixou de ser movido por análise e virou corrida de manada? Toda vez que uma bomba cai em algum lugar do Oriente Médio, o dinheiro corre para a saída como se o mundo fosse acabar na terça-feira. Depois, quando a poeira baixa e os números reais aparecem, os mesmos que venderam em pânico compram de volta mais caro, financiando o lucro dos poucos que tiveram a frieza de ficar. É um padrão tão antigo quanto a própria noção de mercado. O medo vende barato, a paciência compra com desconto, e a história se repete com a regularidade de um relógio suíço.
A Índia, aliás, já está se adaptando. Voltou a importar petróleo iraniano depois de sete anos de hiato, o RBI entrou comprando títulos para conter a escalada dos yields, e o Goldman Sachs reduziu a projeção de inflação para 4,5%. O cenário real é de um país que cresce entre 7% e 7,4% ao ano, com inflação controlada, sendo punido pelo mercado por um conflito que não é seu. Se os yields longos estão em 7,5% e a inflação está em 3,4%, a conta é simples: o juro real está absurdamente generoso. Quem tem estômago para comprar quando o rebanho foge está olhando para um dos melhores prêmios de risco de toda a renda fixa emergente.
O risco, evidentemente, existe. Se Ormuz fechar de vez por um período prolongado, a história muda. Mas precificar o pior cenário como se fosse o cenário base não é prudência, é histeria. E histeria não é estratégia de investimento. Quem quer dormir tranquilo compra colchão; quem quer retorno compra o que o mercado está vendendo pelo preço errado. A inflação indiana é, hoje, um fantasma. E fantasma, como qualquer pessoa séria sabe, não paga juros reais de 4%.
Com informações da Bloomberg. A análise e opinião são do O Algoz.