Volte no tempo, bem antes das declarações anuais e dos aplicativos do Leão, e você vai encontrar a origem honesta daquilo que hoje chamam de tributo. Era pilhagem. O bando armado chegava à aldeia, matava os que resistiam, tomava o grão, levava o gado, escolhia as mulheres e partia. No ano seguinte, alguém no grupo vencedor teve uma ideia que mudou a história: por que queimar a aldeia toda vez, se dá para voltar todo outono e colher parte da produção? Assim nasceu o Estado. Não por contrato entre homens livres reunidos sob uma árvore, discutindo filosofia política, mas por acordo tácito entre o saqueador e a vítima, em que a vítima aceita pagar periodicamente para não ser saqueada de uma vez só.
Quer dizer, o que separa o bandido comum do cobrador oficial é apenas a periodicidade e o membrete. O bandido aparece uma vez e leva tudo; o Estado aparece todo mês e leva um pedaço, com a vantagem de ainda arrancar do saqueado um sorriso agradecido pela estrada asfaltada que ele mesmo pagou três vezes. A diferença entre tributo medieval e imposto moderno é estética. O senhor feudal cobrava em sacos de trigo porque o trigo era o que existia. O Estado contemporâneo cobra em moeda porque descobriu algo ainda melhor: pode imprimir a moeda antes de cobrar, e assim tributa duas vezes, uma pelo boleto, outra pela inflação que corrói o que sobrou no bolso do contribuinte.
Olha, o truque linguístico é que em algum momento da história ocidental trocaram a palavra saque por tributo, tributo por contribuição, contribuição por imposto, imposto por arrecadação, e arrecadação por receita pública, como quem muda o nome da doença para o paciente achar que está curado. A coisa é a mesma. Tome-se uma parte do que o sujeito produziu, sem perguntar, sob ameaça de violência caso ele recuse, e chame isso do que quiser. O conteúdo não muda porque o rótulo foi trocado. Se o vizinho entrar na sua casa, apontar uma arma e levar trinta por cento do seu salário dizendo que vai aplicar em saúde, educação e segurança, você chama a polícia. Se o governo faz a mesma coisa, você chama de cidadania.
Me diz uma coisa, em que momento exatamente o monopólio da violência virou virtude republicana? Os reinos antigos nunca tiveram pudor em admitir o que estavam fazendo. O rei conquistava, taxava, pronto. Não havia conversa de pacto social, nem discurso sobre a justiça redistributiva, nem ministro explicando que a alíquota progressiva é moralmente superior. Era o mais forte tomando do mais fraco, e ponto. A modernidade, com sua mania de embelezar tudo com filosofia política, pegou essa relação brutal e vestiu de smoking. Chamou o saqueador de representante do povo, chamou o palácio de sede do poder legítimo, chamou o exército do rei de forças de segurança pública. Mudou a decoração. Não mudou a mecânica.
E siga o dinheiro, que é onde mora a resposta que ninguém quer ouvir. Quem vive do imposto é uma classe inteira, hereditária em muitos casos, que produziu rigorosamente nada e consome sistematicamente tudo. Burocratas de carreira, políticos profissionais, contratados de contratos públicos, consultores de estatais, fornecedores cativos, sindicatos oficiais, fundações partidárias, ONGs que fingem independência e vivem de convênio, instituições internacionais que cobram para dizer ao país pobre que ele precisa aumentar o imposto. Essa gente toda come do mesmo prato, e o prato é seu. A retórica do contrato social existe para manter o comensal de boa consciência enquanto come. Sem a retórica, ele precisaria admitir que está vivendo do trabalho alheio obtido sob coerção, o que é desconfortável até para os mais duros de coração.
A lição histórica, para quem tem estômago para encará-la, é que o Estado nunca perdeu sua natureza original. Ele apenas se sofisticou. Hoje cobra com algoritmo, audita com inteligência artificial, persegue com juiz togado e condena com imprensa amiga, mas a raiz continua a mesma raiz de sete mil anos atrás, quando o primeiro chefe de bando armado percebeu que era mais rentável virar rei do que continuar bandido de estrada. Toda vez que alguém jura que o imposto é voluntário, pergunte o que acontece se você parar de pagar. A resposta revela a civilização.
Com informações da Mises Institute. A análise e opinião são do O Algoz.