A manchete é daquelas feitas para hipnotizar acionista distraído: a Nvidia projeta um trilhão de dólares em receita de infraestrutura de inteligência artificial até o fim da década, e o pregão pergunta, de joelhos, se isso reanima as ações que andaram patinando. A pergunta correta, porém, não é se o papel sobe na semana que vem. A pergunta é quem está pagando essa conta, com que dinheiro, e por que tantos analistas que jamais previram nada de relevante na vida agora sabem, com precisão decimal, quanto a humanidade vai consumir de GPU em 2030.
Olha, números redondos vendidos em palco de conferência são o equivalente moderno daquelas profecias de ouro do Eldorado que mandaram conquistadores morrerem em pântanos. Um trilhão é uma cifra que ninguém consegue visualizar, e é exatamente por isso que funciona. O cérebro humano desliga, o algoritmo de trading liga, e o investidor pessoa física entra no foguete achando que está comprando o futuro quando está, na verdade, comprando o entusiasmo de outro investidor que entrou meia hora antes. O valor de uma empresa não está no slide do CEO, está na disposição concreta de clientes pagarem, com dinheiro próprio, pelo que ela produz.
E aqui o esquema fica interessante. Boa parte da receita atual da Nvidia vem de um circuito quase fechado: hyperscalers comprando GPUs para treinar modelos que ainda não geraram lucro proporcional, startups de IA queimando capital de risco em chips que pagam royalty para a própria Nvidia, que por sua vez investe em algumas dessas startups, que voltam a comprar mais chips. É a serpente comendo a própria cauda em câmera lenta, e enquanto o crédito barato continuar jorrando dos bancos centrais e dos fundos soberanos, a coreografia se sustenta. Quando o dinheiro fica caro de verdade, descobre-se quem estava nadando pelado.
Não confunda, contudo, ceticismo com negação. Inteligência artificial é tecnologia transformadora, e a Nvidia construiu, com mérito empresarial genuíno, uma posição quase monopolista em hardware crítico. O ponto não é se a IA importa, é se importa um trilhão até 2030 ou um quarto disso. A diferença entre essas duas hipóteses é a fronteira entre a maior história de criação de valor da década e o estouro de bolha mais bem documentado da história do capital. Cada ferrovia americana do século dezenove era tecnologia real, e ainda assim metade quebrou os investidores que comprou a versão otimista do prospecto.
Some-se a isso o detalhe que ninguém quer comentar em alto e bom som: gigantescas compras de chip estão sendo financiadas por dívida corporativa emitida a juros que ainda refletem a era do dinheiro grátis, e por capital governamental disfarçado de subsídio industrial, de incentivo à soberania tecnológica, de programa estratégico. Quando o contribuinte americano, europeu ou brasileiro acorda descobrindo que financiou indiretamente, via política fiscal e monetária frouxa, a maior transferência de renda da história para um cartel de fabricantes de semicondutor, talvez seja tarde para perguntar quem autorizou a festa. O mercado, esse mercado, não é mercado. É uma extensão da impressora.
Reanima as ações? Provavelmente sim, no curto prazo, porque liquidez gosta de narrativa e narrativa de número grande. Sustenta-se no longo prazo? Só se a economia real entregar produtividade compatível com a promessa, e produtividade não se decreta em apresentação de slide, se conquista no chão da fábrica, no escritório, no consumidor que troca dinheiro de verdade por valor de verdade. Enquanto isso, comemora-se o trilhão prometido com champanhe pago, em última instância, por quem nunca foi convidado para a festa.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.