A AB InBev entregou números acima do esperado no primeiro trimestre de 2026, com as chamadas megamarcas, Budweiser, Corona, Stella Artois, puxando margem e volume num movimento que pegou os analistas de banco com a mão no bolso errado. Lucro operacional crescendo dois dígitos em mercados como Brasil, México e Europa, enquanto a China, que durante uma década foi vendida como o eldorado eterno da cerveja premium, encolhe, decepciona e arrasta a média global para baixo. O mercado reagiu, as ações subiram, e os mesmos analistas que erraram a previsão agora explicam, com cara de doutor, por que sempre souberam que ia ser assim.
Olha, a história aqui é mais interessante do que o release oficial deixa transparecer. A China não está perdendo cerveja por acaso, nem porque o chinês cansou de beber. Está perdendo porque o regime que prometeu prosperidade eterna via planejamento agora colhe o que plantou: bolha imobiliária estourada, consumidor endividado, juventude desempregada, classe média que descobriu da pior maneira que crescimento decretado em comitê não é o mesmo que riqueza gerada por escolha livre. Quando o cidadão aperta o cinto, o primeiro item a sair do carrinho é o supérfluo, e cerveja premium importada é supérfluo de manual.
Repare no contraste que ninguém quer enxergar. No Brasil, país que vive xingando o próprio mercado, a Ambev vende mais, vende melhor e mantém margem operacional que faz inveja a qualquer estatal chinesa. No México, idem. Na Europa, mesmo com inflação corroendo poder de compra, o consumidor continua escolhendo. O denominador comum desses mercados não é a economia perfeita, é a presença mínima de um sistema de preços livre o bastante para que produtor saiba o que produzir e consumidor saiba o que pode pagar. Onde o preço fala, o mercado funciona; onde o partido fala mais alto que o preço, o mercado emudece.
E aí entra a parte que nenhum executivo da InBev vai dizer em conferência com investidor: o problema chinês não é cíclico, é estrutural, e estrutural significa que não se resolve com pacote de estímulo nem com corte de juros do banco central de Pequim. Quando você passa quinze anos subsidiando construtoras, inflando consumo via crédito dirigido, distorcendo o cálculo econômico de milhões de empresários e fingindo que crescimento de PIB calculado pelo próprio governo é a mesma coisa que prosperidade real, a conta chega. Está chegando agora, em forma de prateleira de cerveja parada.
Quer dizer, a lição que a InBev deu hoje, sem querer, é a mesma de sempre, só que servida gelada e com colarinho. Empresa que opera em mercado relativamente livre cresce; empresa que depende de consumidor anestesiado por planejamento central definha. E o pior é que os mesmos jornais que vão noticiar o resultado como vitória de marketing vão silenciar sobre a verdadeira variável independente da equação, porque admitir que liberdade econômica produz resultado e dirigismo produz prejuízo continua sendo tabu nas redações que se acham sofisticadas.
Me diz uma coisa, quantos trimestres ainda vão ser necessários para que o consenso descubra que o milagre chinês foi sempre, em sua maior parte, contabilidade criativa de um regime que não admite auditoria? A InBev acaba de mostrar, em copo de chope, que onde o homem é livre para escolher sua cerveja, há cerveja para escolher. Onde o partido escolhe por ele, sobra fila e propaganda.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.