A notícia chegou sem fanfarra, como costumam chegar as notícias que realmente importam. A ABM Industries, companhia americana que faz o trabalho invisível de manter prédios funcionando, anunciou receita recorde no segundo trimestre de 2026 e viu suas ações subirem no pregão. Não foi subsídio, não foi pacote de estímulo, não foi PAC de lugar nenhum. Foi gente acordando cedo, vendendo serviço, atendendo cliente, cobrando preço justo e entregando o combinado. Quer dizer, o tipo de coisa que nenhum ministério da economia jamais conseguiu replicar com cem reuniões e mil planilhas.
Olha, há algo profundamente revelador no fato de que a empresa que está batendo recorde de faturamento nos Estados Unidos não é uma startup de inteligência artificial financiada por banco central disfarçado de venture capital. É uma prestadora de serviços de limpeza, manutenção e segurança predial. O ramo mais antigo do mundo depois da prostituição, e provavelmente mais honesto que metade dos contratos públicos assinados neste exato momento. A ABM cresce porque alguém precisa varrer o chão do aeroporto, alguém precisa trocar a lâmpada queimada do hospital, alguém precisa garantir que o sistema de ar condicionado do shopping não desligue no meio do verão. Coisas que o burocrata despreza porque não rendem manchete, mas sem as quais a civilização para em uma semana.
Me diz uma coisa, por que esse tipo de empresa prospera nos Estados Unidos enquanto no Brasil o equivalente é sufocado por encargos trabalhistas, ISS municipal, PIS, Cofins, INSS patronal e a saudosa contribuição sindical que volta com nome novo a cada governo? A resposta é desconfortável para quem vive da máquina pública. Em qualquer país onde o Estado consegue ficar fora do caminho por tempo suficiente, gente comum produzindo coisas concretas gera riqueza concreta. Em qualquer país onde o Estado se enfia em cada contrato, cada folha de pagamento, cada nota fiscal, o que sobra é informalidade no térreo e capitalismo de compadrio no andar de cima. Os trimestres recordes ficam para os amigos do rei, não para quem trabalha.
Vale seguir o dinheiro, como sempre. A ABM tem cliente porque entrega serviço, e o lucro que ela embolsa vai para acionistas que muitas vezes são fundos de pensão de professor aposentado em Ohio, bombeiro reformado no Texas, viúva de mecânico em Detroit. Esse capitalismo difuso, pulverizado, no qual o ganho da empresa vira aposentadoria do cidadão comum, é exatamente o sistema que os apóstolos do planejamento central juram odiar em nome dos pobres. Curioso, não? Quanto mais o Estado promete cuidar dos pobres, mais pobres fica o pobre. Quanto mais o mercado é deixado em paz, mais o operário consegue se aposentar com algum patrimônio em ações de empresa que limpa chão.
Há também a lição invisível, aquela que ninguém vai contar no Jornal Nacional nem no editorial da Folha. Para cada real que a ABM fatura e distribui em salário, dividendo e imposto, existe um real que não foi faturado por uma empresa concorrente afogada em compliance, ESG performático e regulamentação criada por consultor de Davos que nunca trocou uma lâmpada na vida. O sucesso dessa companhia é simultaneamente o sucesso de um modelo e a denúncia silenciosa de tudo que travou seus pares. Toda lei trabalhista bem intencionada, toda agência reguladora bem remunerada, toda exigência de relatório de diversidade que ninguém lê, tudo isso é emprego que não nasceu, prédio que não foi mantido, salário que não foi pago. O que se vê é a manchete da ABM. O que não se vê é o cemitério de empresas que poderiam estar fazendo o mesmo se alguém parasse de inventar regra nova a cada manhã.
No fim das contas, a história é sempre a mesma e merece ser repetida até cansar. Riqueza não brota de discurso, não nasce de pacote anunciado em coletiva, não cai do céu por bondade de presidente. Riqueza é o que sobra quando o Estado cansa de atrapalhar e gente comum consegue trabalhar em paz por tempo suficiente para que o trabalho vire patrimônio. A ABM Industries não bateu recorde porque o governo americano é genial. Bateu recorde apesar dele. E essa é a única notícia econômica que vale a pena entender neste século.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.