A ação da Assured Guaranty tocou US$ 72,31 nesta semana, o menor patamar em 52 semanas, e a manchete passou como se fosse mais um papel qualquer perdendo fôlego numa terça-feira preguiçosa. Só que não é papel qualquer. A Assured Guaranty é uma das principais seguradoras de títulos de dívida municipal e soberana dos Estados Unidos, ou seja, é a empresa que promete cobrir o calote quando prefeitura, condado ou estado americano não honrar o compromisso. Quando o mercado começa a descontar essa promessa, está dizendo em alto e bom som que o risco de calote subiu, e que a garantia vendida talvez não valha o papel em que foi impressa.
Olha, existe uma coisa engraçada com seguradora de dívida: ela funciona enquanto ninguém precisa dela. É o mesmo princípio do banco, que só quebra quando todo mundo aparece no mesmo dia querendo sacar. A Assured tem no balanço uma pilha de obrigações contingentes que, no papel, estão diluídas em décadas de vencimentos escalonados. Mas o balanço não é o mercado. O mercado é o sujeito que vende antes da manada e olha para o gráfico com aquela cara de quem já viu esse filme. E o gráfico está dizendo que a manada começou a andar.
Quer dizer, para entender por que uma seguradora de dívida pública americana está apanhando, basta seguir o dinheiro. Quem paga o prêmio do seguro é a entidade emissora, prefeitura de Chicago, estado da Illinois, território de Porto Rico, e por aí vai. Essas entidades gastaram mais do que arrecadaram durante anos, financiaram déficit com dívida nova, e agora chegaram ao ponto em que a rolagem já não fecha nas mesmas condições de antes. Juros mais altos, receita municipal minguando, folha inchada de servidor com aposentadoria dourada, e no fim da fila alguém tem que assumir o prejuízo. A Assured é essa alguém. O mercado apenas antecipou a matemática que os balanços municipais escondem com contabilidade criativa.
Me diz uma coisa, quem financiou toda essa festa de gasto público que agora ameaça respingar na seguradora? Foi o mesmo esquema de sempre: banco central mantendo juros artificialmente baixos por uma década, prefeito populista prometendo o mundo aos servidores públicos, e uma tropa de assessores dizendo que dívida municipal é seguro porque tem o carimbo do governo. É o clássico do castelo de cartas monetário, aquela expansão de crédito sem lastro na produtividade real que enche a economia de projetos que só fazem sentido enquanto o dinheiro é barato. Quando o juro sobe, o projeto morre, a dívida fica, e a seguradora entra em cena para cobrir o buraco que o entusiasmo fiscal cavou.
O que ninguém quer discutir é que a Assured, no fundo, é apenas o canário na mina do modelo fiscal americano subnacional. Cidades e estados operando com déficit estrutural, prometendo pensões que a matemática atuarial já mostrou serem impagáveis, apostando na eternidade dos juros baixos que acabou em 2022. A queda da ação não é o problema, é o sintoma. É o mercado precificando o que a política se recusa a admitir: que promessa demais foi feita, que dinheiro demais foi imprimido, e que a conta vai chegar para alguém. Provavelmente para o contribuinte, como sempre.
E aqui está a lição que o noticiário econômico não vai destacar porque é chata para o gosto do editor: não existe garantia governamental sem contribuinte por trás. A seguradora é apenas o intermediário entre a irresponsabilidade fiscal do político e o bolso de quem trabalha. Quando o papel dessa intermediária derrete na bolsa, é porque o mercado descobriu, antes do jornal, que a bolsa em que essa festa foi financiada está prestes a virar do avesso. O canário caiu do poleiro. Quem tem ouvido, que ouça.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.