A ação da Astera Labs encostou nos US$ 263,00 e a manada financeira tratou o evento como se fosse epifania religiosa. Olha, uma empresa de conectividade para data centers de inteligência artificial sobe à estratosfera porque todo mundo decidiu, ao mesmo tempo, que IA é o novo petróleo, o novo ouro e o novo evangelho. O detalhe que ninguém comenta nas mesas de operação é trivial: preço de ação não é termômetro de produtividade real, é termômetro de liquidez. E liquidez, nos últimos anos, foi fabricada às toneladas por bancos centrais que confundem impressora com varinha mágica.
Me diz uma coisa, qual o múltiplo justo para uma empresa que vende picaretas numa corrida do ouro cuja jazida ninguém ainda mediu? A história econômica é generosa com quem tem memória. Já vimos isso com as ferrovias britânicas no século dezenove, com o rádio nos anos vinte, com as ponto-com em 1999, com as casas americanas em 2006. Em todos os ciclos, o ativo da moda foi tratado como exceção, como se desta vez a gravidade não se aplicasse. E em todos os ciclos a gravidade voltou, pontual como cobrador de aluguel.
O que se vê é o pregão exuberante, a manchete entusiasmada, o gestor de fundo dando entrevista sobre revolução tecnológica. O que não se vê é o capital sendo desviado de mil pequenas iniciativas produtivas que jamais entrarão em manchete porque não têm sigla em inglês. Quando o dinheiro fácil escolhe seus queridinhos, ele esvazia o restante da economia silenciosamente. Cada dólar empurrado para a bolha da vez é um dólar que não financiou a pequena indústria, o agricultor, o empreendedor de bairro. Mas isso não dá capa de revista.
Há ainda o capítulo do compadrio que ninguém quer ler. A festa da IA não acontece num vácuo: ela é regada por subsídios federais americanos, por encomendas governamentais bilionárias, por incentivos fiscais que selecionam vencedores antes do mercado escolher. Siga o caminho do contrato e você descobre que boa parte da euforia tem CNPJ do Tio Sam estampado no contracheque. Não é capitalismo selvagem que está fazendo essas ações voarem, é capitalismo de gabinete, com porta giratória entre Pentágono, Vale do Silício e Wall Street.
O sujeito comum, esse que paga imposto e olha o gráfico achando que está perdendo o trem da história, deveria desconfiar precisamente quando a unanimidade reina. Se todo analista de banco grande, toda revista de negócios e todo influenciador de finanças concordam que determinado setor é o futuro inevitável, é hora de contar os talheres. O consenso é mercadoria barata, e geralmente serve para distribuir o prejuízo entre os retardatários quando os primeiros a entrar resolverem realizar o lucro.
Nada disso significa que IA seja farsa ou que Astera Labs não tenha valor. Significa apenas que preço não é valor, que cotação não é fundamento, e que toda festa financiada por crédito artificial termina com ressaca proporcional ao copo. Quem dança esquecido de que a música é tocada por um banco central vai aprender, da maneira mais cara, que toda bolha cumpre seu destino.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.