A Brightstar Lottery, antiga IGT rebatizada com nome de estrela para disfarçar o cheiro de monopólio velho, fechou na mínima de 52 semanas a US$ 10,67. O papel sangra há meses e a explicação que circula nas mesas de análise é a mistura habitual de "ambiente macro desafiador", "pressão competitiva" e outros eufemismos que servem para não dizer o óbvio. O óbvio é que esta empresa não vende produto, vende acesso. Acesso a contratos de loteria estadual nos Estados Unidos, Itália, Reino Unido, América Latina. Quando o acesso vacila, o ativo vira pó. E o acesso sempre vacila, porque depende de gente que muda de cadeira a cada eleição.

Olha, o negócio de loteria estatal é a forma mais antiga e mais bem maquiada de pilhagem legalizada que a humanidade inventou depois do dízimo compulsório. O governo proíbe que qualquer cidadão organize um sorteio na esquina, monopoliza a atividade em nome da "proteção ao consumidor vulnerável" e em seguida terceiriza a operação para uma empresa privada escolhida a dedo, que paga royalty ao Estado e divide o resto com acionistas. O pobre coitado que compra o bilhete acha que está jogando contra a sorte. Está jogando contra três camadas de intermediários, e a sorte é só o teatro de cortina.

Quer dizer, siga o dinheiro e a coreografia aparece inteira. A receita da Brightstar vem de contratos plurianuais com governos que se renovam por licitação, e licitação de loteria é o terreno mais fértil para o capitalismo de compadrio que existe no planeta. O concorrente que perde processa, o concorrente que ganha lobiou melhor, o regulador que decide hoje é o consultor da vencedora amanhã. Quando você compra essa ação, está apostando que a porta giratória continuará girando no sentido favorável. Quando o papel cai 30% num ano, é porque alguém percebeu que o vento mudou em alguma capital relevante, e o mercado ainda não sabe qual.

Me diz uma coisa: alguém viu a notícia mencionar o que se vê e o que não se vê? Vê-se o dividendo, vê-se o EBITDA, vê-se a recompra de ações. Não se vê o cidadão americano médio gastando proporcionalmente mais em bilhete de loteria do que em poupança privada, financiando com seu desespero a folha de pagamento de um conselho de administração que jamais pisou no bairro onde se compra o bilhete. Não se vê que cada dólar drenado pela loteria estatal é um dólar que não foi para um pequeno comércio, um curso técnico, uma reserva de emergência. A queda da ação é apenas o sintoma. A doença é a estrutura.

E tem o detalhe técnico que ninguém quer comentar em voz alta. A Brightstar carrega dívida pesada herdada de aquisições feitas na era do dinheiro grátis, quando o banco central americano fingia que juro zero era política monetária e não anestesia geral. Agora que o custo do dinheiro voltou a existir, empresas alavancadas que viviam de rolar passivo descobrem que o chão era de papelão. Toda vez que um governo central infla a economia com crédito artificial, semeia justamente este tipo de empresa zumbi, que parece saudável enquanto a impressora funciona e desmorona no primeiro aperto. O ciclo é tão velho quanto previsível, mas o investidor de varejo continua surpreso a cada repetição.

A mínima de 52 semanas, no fim das contas, não é tragédia, é diagnóstico. É o mercado fazendo o trabalho que regulador nenhum faz: cobrar o preço da promiscuidade entre Estado e empresa. Quem comprou achando que monopólio estatal blindava o lucro está aprendendo, com juros, que a única coisa que monopólio estatal blinda é o burocrata que vai trocar de emprego no ano que vem. A lição custa caro, mas pelo menos ensina. O cassino do Tio Sam sempre paga, sim, só que quem paga é o acionista.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.