A Clear Secure atingiu a máxima de 52 semanas em US$ 59,53 e os analistas correram para os terminais Bloomberg recitando o catecismo de sempre, crescimento de assinantes, expansão de aeroportos parceiros, melhora de margens. Tudo verdade. Tudo irrelevante. O fato concreto que ninguém quer encarar é mais simples e mais constrangedor: existe uma empresa de capital aberto, com valor de mercado bilionário, cuja única razão de existir é vender ao cidadão americano o direito de não esperar numa fila criada pelo próprio governo americano. Quer dizer, o Estado fabrica o problema, e depois licencia a iniciativa privada para vender a solução de luxo. É genial, no sentido em que um esquema de pirâmide bem montado também é genial.
Olha, qualquer pessoa que já passou por um aeroporto americano nos últimos vinte anos sabe que a fila da TSA não é um acidente da natureza. Ela é o produto previsível de uma burocracia inflada que cresceu depois de 2001 sob a desculpa do terrorismo, e que desde então se tornou um monstro autossustentável de quase sessenta mil funcionários federais cuja única competência verificável é fazer o passageiro descalçar o sapato. Pois bem. Sobre essa fila artificial, esse desconforto manufaturado por decreto, ergueu-se um mercado paralelo de pulseiras biométricas a US$ 199 por ano. Quem paga, passa na frente. Quem não paga, espera. O nome técnico disso, no jargão econômico honesto que quase ninguém usa mais, é renda de monopólio convertida em ativo financeiro.
Me diz uma coisa, em que outro setor da economia uma empresa consegue cobrar assinatura recorrente para resolver um inconveniente que ela mesma não criou e que não tem poder de eliminar? Em nenhum. Porque em mercado livre de verdade, se você fabrica desconforto para o cliente, o concorrente aparece no dia seguinte oferecendo conforto sem custo extra. A Clear não tem concorrente possível, porque o produto que ela vende, o atalho regulatório, não é replicável sem autorização do mesmo governo que criou a fila. É um cartel de duas partes, o burocrata que mantém o gargalo e o acionista que monetiza o gargalo, e ambos saem ganhando. Quem perde é o passageiro pobre, que não tem US$ 199 sobrando e fica na fila comum descalçando sapato como punição por ser classe média baixa.
Siga o dinheiro e a coisa fica ainda mais interessante. A empresa precisa de contratos com aeroportos, cooperação operacional com a TSA, integração com bancos de dados federais. Nada disso seria possível sem uma rede densa de relações com o aparato regulatório de Washington. O acionista que comemora a máxima de 52 semanas está, na prática, comprando uma fatia de um arranjo institucional, não de uma inovação tecnológica. A tecnologia da Clear é trivial, leitor de íris e de impressão digital existe há décadas. O que ela vende é acesso. E acesso, em país onde o Estado decide quem fura fila e quem não fura, é mercadoria de cartório, não de mercado.
O capitalismo de compadrio não veste mais cartola e charuto, ele veste hoodie da Patagonia e fala em customer experience na conferência de Davos. Mas o mecanismo é o mesmo desde os tempos das companhias de comércio com carta régia, lucro privado garantido por privilégio público. Toda vez que você vir uma ação subir vertiginosamente sem que a empresa esteja oferecendo nada de genuinamente novo ao consumidor, pare e pergunte de onde vem o fosso competitivo. Se a resposta envolve regulação, licença, autorização ou parceria estatal, o que você está olhando não é capitalismo, é renda extrativa com ticker na bolsa.
O mercado celebra a Clear como se fosse uma vitória do empreendedorismo americano. É uma vitória, sim, mas do empreendedorismo de quem entendeu que o caminho mais curto para ficar rico no século vinte e um não é inventar um produto melhor, é alugar o monopólio da violência estatal em forma de fila e vender o passe livre para quem pode pagar. Enquanto houver burocrata para criar gargalo, haverá investidor para precificar o desvio. E o cidadão comum continuará descalçando sapato, agora com a certeza de que sua humilhação rende dividendo trimestral para alguém em Manhattan.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.