Enquanto comentaristas de televisão repetem que "o capitalismo está em crise" e ministros europeus rascunham mais um pacote de regulação para o setor de eventos, a ação da CTS Eventim acaba de tocar US$ 62,07, máxima de cinquenta e duas semanas. Quer dizer, no mundo real, longe das mesas redondas de Davos, uma empresa alemã que vende ingressos para shows está sendo recompensada com fluxo de capital justamente porque faz algo que nenhum burocrata sabe fazer: descobrir, em tempo real, quanto vale a vontade de milhões de pessoas de ver um espetáculo numa noite de sábado.
Olha, ninguém em Bruxelas acordou de manhã e decidiu que CTS deveria valer mais. Não houve decreto, não houve "estímulo setorial", não houve subsídio camuflado de programa de fomento à cultura. Houve uma coisa muito mais simples e muito mais incômoda para quem vive de planejar a vida alheia: pessoas compraram ingressos, organizadores contrataram a plataforma, investidores leram balanços e concluíram que ali está sendo gerada riqueza genuína. O preço da ação é apenas a foto resumida desse consenso espontâneo, distribuído entre milhares de cabeças que nunca se conheceram e que jamais concordariam sobre qualquer outra coisa.
E aqui mora a contradição que ninguém na imprensa econômica brasileira tem coragem de cravar. A mesma União Europeia que sangra suas estatais ferroviárias, que afoga sua indústria automobilística em metas climáticas impossíveis, que destruiu sua matriz energética em nome de uma transição que ninguém pediu, continua produzindo, por acidente quase, empresas privadas que escalam globalmente quando o Estado simplesmente esquece de regular. CTS cresce porque ninguém ainda teve a brilhante ideia de criar uma "agência nacional de bilheteria" para "democratizar o acesso aos shows". Quando essa ideia chegar, e ela vai chegar, o gráfico inverte.
Me diz uma coisa: por que toda vez que uma empresa atinge máxima histórica em bolsa, surge, três meses depois, um deputado com projeto de lei para "taxar lucros excessivos" do setor? A resposta é trivial e por isso mesmo escondida. Capital visível atrai predador político como sangue atrai tubarão. O sucesso privado é insuportável para quem construiu carreira inteira sobre a tese de que riqueza só se cria por intervenção. Cada papel que sobe é uma refutação silenciosa, e refutações silenciosas são exatamente as mais perigosas para narrativas que vivem de barulho.
Há algo profundamente saudável no fato de que, em meio ao circo monetário dos bancos centrais imprimindo trilhões e fingindo combater inflação que eles próprios fabricaram, ainda exista um pedaço do mercado onde o cálculo funciona. Vendeu mais ingresso, faturou mais, valeu mais. Não tem juro real negativo capaz de mascarar isso indefinidamente, não tem comunicado de banco central que altere essa aritmética elementar. A CTS na máxima é a prova viva de que, quando o jogo é razoavelmente honesto, o resultado ainda faz sentido.
O investidor brasileiro que acompanha esse movimento deveria tirar a lição correta, e ela não é "comprar CTS". A lição é entender que toda vez que um governo promete "organizar" um setor, está anunciando que vai destruir o mecanismo silencioso pelo qual aquele setor descobre o que produzir. Setor de eventos europeu prospera enquanto ninguém o salva. Quando a salvação chegar, vestida de imposto progressivo sobre ticket médio ou de cota obrigatória de artistas nacionais, o gráfico que hoje aponta para o céu vai lembrar a quem ainda tinha dúvida que mercado não é coisa que se aperfeiçoa por decreto. É coisa que se destrói por decreto, sempre, sem exceção registrada na história econômica dos últimos trezentos anos.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.