A HNI Corporation, fabricante americana de mobiliário corporativo e sistemas de aquecimento residencial, viu seus papéis tocarem US$ 28,94, a mínima das últimas 52 semanas. O número, em si, é só um número. O que ele conta, porém, é a história inteira de uma economia que passou anos achando que poderia desafiar a gravidade fingindo que o custo do dinheiro era zero.

Quem comprou HNI lá em cima estava comprando uma promessa simples: o escritório corporativo americano, expandido sem limite por uma década de financiamento barato, continuaria sugando mesas, divisórias, cadeiras ergonômicas e estações de trabalho como se não houvesse amanhã. Só que o amanhã chegou, e veio na forma de prédios comerciais semivazios em Nova York, San Francisco e Chicago, onde a taxa de vacância já flerta com patamares que não se viam desde os anos setenta. Não é coincidência. É consequência matemática de o banco central inflar a bolha de imóveis comerciais por anos a fio e depois descobrir, surpreso, que o trabalho remoto e os juros altos resolveram, juntos, esvaziar o andar inteiro.

Olha, ninguém precisa de pós-doutorado em finanças para enxergar o que aconteceu aqui. Quando o crédito é jogado na economia a um custo abaixo do que o mercado livremente acordaria, o sinal de preço se corrompe. Empresas que jamais teriam expandido seus escritórios resolvem alugar três andares no centro. Construtores que jamais teriam erguido aquela torre de vidro descobrem que conseguem financiar a obra a juros de pechincha. Fornecedores como a HNI, no fim da cadeia, recebem o sinal falso de que existe demanda estrutural e ajustam capacidade, estoques, fábricas inteiras. Tudo isso é o boom. O bust é quando o sinal verdadeiro reaparece, e ele sempre reaparece, e descobre-se que metade daquela demanda era miragem contábil sustentada por planilha de juro negativo real.

E aí vem a parte engraçada, ou melhor, a parte que seria engraçada se não fosse trágica. O mercado financeiro, sempre com sua memória de peixinho dourado, vai tratar a HNI a US$ 28,94 como se fosse um problema da HNI. Gestão ruim, dirão. Setor maduro, dirão. Headwinds macroeconômicos, dirão, usando a palavra em inglês porque em português soa como o que de fato é: a desculpa esfarrapada de quem não quer admitir que o paciente está morrendo da medicação que prescreveu. Headwind, meu caro, é o vento que sopra contra. O vento, no caso, é o banco central tentando apagar o incêndio que ele mesmo ateou, e a fumaça está saindo pelas demonstrações financeiras de cada empresa exposta ao ciclo do crédito.

Siga o dinheiro e a coisa fica mais clara. Os juros baixos beneficiaram quem? Os grandes incorporadores, os bancos que sindicaram dívida corporativa, os fundos imobiliários que captaram a custo zero e cobraram aluguel premium. A festa foi deles. A conta, quando o ciclo virou, vai para o acionista pulverizado da HNI, para o trabalhador da fábrica em Iowa que produz as estações de trabalho que ninguém mais encomenda, e para o aposentado cujo fundo de pensão estava sobreponderado em small caps industriais americanas porque algum gestor MBA garantiu que era uma jogada segura. Privatizam-se os ganhos, socializam-se as perdas, e ainda chamam isso de capitalismo. Quer dizer, é capitalismo da mesma forma que casamento arranjado é amor.

O ponto mais doloroso, e o que precisa ser martelado em cada coluna sobre cada mínima de cada papel até que alguém entenda, é que isso não foi acidente. Não foi pandemia, não foi guerra, não foi azar. Foi política pública, deliberada, executada por gente com sobrenome e doutorado, que decidiu que poderia substituir o julgamento de milhões de poupadores e investidores pela canetada de um comitê em Washington. O resultado é sempre o mesmo, em qualquer país, em qualquer época, em qualquer setor: alocação errada de capital, capacidade ociosa, empresas zumbis arrastando os pés até o dia em que o financiamento seca. A HNI a US$ 28,94 não é uma anomalia de mercado. É a contabilidade finalmente alcançando a realidade. E o ajuste, como todo ajuste reprimido por tempo demais, vai ser mais feio do que tinha que ser.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.