A Marathon Petroleum, refinadora americana que ninguém do andar de cima da ESG queria mencionar em jantar chique, fechou o pregão a US$ 398,68, máxima histórica. Não é pico especulativo de meme stock, não é bolha de inteligência artificial, não é criptomoeda batizada com nome de cachorro. É óleo. É gasolina. É diesel. É exatamente aquilo que a boa sociedade global decretou moribundo em pelo menos umas quarenta conferências climáticas nos últimos vinte anos, sempre com champanhe francês e jatinho executivo abastecido, aliás, com querosene fóssil.
Quer dizer, tem algo profundamente cômico no espetáculo. Governos do mundo inteiro assinam metas de descarbonização, subsidiam painel solar chinês com dinheiro do contribuinte, punem quem produz energia barata, taxam quem transporta comida, e ao mesmo tempo o capital, que não lê discurso de plenário mas lê balanço, empilha bilhões numa refinadora de petróleo do Ohio. Isso não é contradição do mercado. É o mercado dizendo, com a clareza que só os preços têm, que a demanda por energia densa e confiável não caiu, não vai cair, e quem apostar contra isso vai apanhar duas vezes, no bolso e no rosto.
Olha, vale seguir o dinheiro. Quem lucra com a Marathon a quatrocentos dólares não é o CEO de camiseta preta pregando net zero em Davos. É o fundo de pensão do bombeiro do Texas, é o aposentado que comprou ação há dez anos, é o gestor que não engoliu a narrativa e manteve energia tradicional no portfólio enquanto os consultores diziam para vender tudo e comprar hidrogênio verde. Do outro lado, quem paga são os europeus que fecharam usinas nucleares para depender de gás russo, os alemães que agora queimam carvão marrom porque o vento não sopra sob demanda, e o consumidor comum que vê a conta de luz triplicar enquanto lhe explicam que isso é para salvar o planeta dos netos dele.
O caso brasileiro é ainda mais patético. Temos petróleo em abundância no pré-sal, temos uma estatal que sozinha poderia bancar meia previdência, e passamos os últimos anos discutindo se devemos ou não explorar a Foz do Amazonas, se refinaria é coisa do demônio, se combustível barato é privilégio inaceitável. Enquanto isso, no hemisfério norte, os adultos da sala capitalizam suas refinadoras, garantem segurança energética, e vendem para nós o produto refinado que teríamos capacidade sobrada de produzir aqui. Recompensamos a virtude sinalizada com miséria concreta, e chamamos isso de política pública responsável.
Me diz uma coisa. Se combustível fóssil é a peste do século, por que a ação da peste bate recorde? A resposta desconfortável é que a transição energética anunciada com fanfarra é, no fundo, uma transferência de renda dos pobres para os subsidiados, com custo escondido que ninguém quer somar em voz alta. O painel solar precisa de silício minerado com diesel, transportado em navio a óleo pesado, instalado por caminhonete a gasolina, e apoiado por termoelétrica quando anoitece. A cadeia inteira do verde bebe do preto, e todo mundo que trabalha no setor sabe, mas ninguém diz em público porque a etiqueta social não permite.
O recorde da Marathon é uma sentença silenciosa contra duas décadas de moralismo energético. Não veio em manifesto, não veio em editorial de jornal, veio em número frio no terminal Bloomberg, que é onde a realidade costuma comparecer quando cansa de ser ignorada. A moral da história é antiga e simples: você pode legislar contra a gravidade, pode subsidiar a levitação, pode multar quem cair no chão, mas no fim a maçã continua caindo. E quem vende maçã segue enriquecendo, enquanto o comitê de física celestial encerra a reunião com um brinde ao próximo trimestre.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.