A Middleby Corp, fabricante americana de fornos combinados, fritadeiras industriais e esteiras de cozinha que alimentam desde a rede de fast food da esquina até o hotel cinco estrelas em Dubai, viu suas ações tocarem o chão de US$ 109,67, a menor cotação em 52 semanas. Um papel que já foi queridinho dos fundos de crescimento, negociado a múltiplos de sonho no auge do dinheiro impresso, agora apanha como quem esqueceu a costela no braseiro. E o mais curioso é o silêncio dos analistas de terno, aqueles mesmos que juravam há três anos que a empresa era imune a ciclo porque, afinal, gente precisa comer.

Só que o ponto nunca foi se as pessoas vão comer. O ponto é quem vai comprar um forno combinado de oitenta mil dólares num ambiente de juros altos, crédito escasso e franqueado apertado pelo custo da carne, do frango e da energia. Equipamento de cozinha industrial é bem de capital, e bem de capital é a primeira coisa que trava quando a torneira monetária fecha. Foi assim em toda recessão que este mundo já viu, e vai ser assim de novo, porque a natureza do ciclo de crédito não muda só porque o Federal Reserve mudou o comunicado.

Vale seguir a trilha do dinheiro. Durante uma década, o crédito artificialmente barato inflou balanços, expandiu redes de restaurantes que não deveriam existir, financiou reformas de cozinhas que ninguém teria feito com juros de mercado, e a Middleby faturou como se a festa fosse eterna. Aí a festa acabou, os franqueados quebrados devolvem equipamento seminovo, o mercado secundário afoga a demanda por unidades novas, e a receita recorrente de peças de reposição, aquela que os gestores vendiam como fosso competitivo, começa a mostrar que fosso raso vira poça na primeira estiagem.

Aí vem a parte que ninguém quer contar para o pequeno investidor. A ação não caiu porque a empresa é ruim. Caiu porque foi precificada durante anos como se juro real zero fosse permanente, como se a expansão global de redes de comida rápida fosse crescer para sempre, como se o consumidor americano endividado até o pescoço fosse continuar pagando quinze dólares num sanduíche. Todo esse otimismo estava embutido no múltiplo, e quando o múltiplo comprime, o estrago é geométrico, não aritmético. É o que se vê no gráfico. O que não se vê é a fila silenciosa de fundos de pensão, endowments universitários e planos de aposentadoria que carregam esse papel na carteira e vão levar anos para recuperar o preço médio.

E há a lição que se repete a cada década, ignorada com pontualidade britânica. Não existe empresa imune a ciclo, não existe modelo de negócio que dispense o custo do capital, não existe fosso competitivo que sobreviva a três anos de juro real de cinco por cento. A ilusão de que sim é justamente o que o dinheiro fácil produz: uma geração inteira de gestores, analistas e investidores que nunca viram um ciclo de verdade e acham que o preço só sobe. Quando o preço lembra que também desce, o susto vira notícia, a notícia vira mínima de 52 semanas, e a mínima de 52 semanas vira o novo teto por um bom tempo.

O mercado não está errado ao punir a Middleby. Está corrigindo, tarde, uma precificação que só existiu porque um cartel de banqueiros centrais decidiu, durante quinze anos, que a lei da gravidade financeira estava suspensa. A gravidade voltou. E ela cobra juros compostos.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.