A nCino, fornecedora americana de plataforma de software para bancos, divulgou resultados trimestrais considerados sólidos e os analistas de plantão correram para reafirmar o rating de outperform, aquele selo mágico que faz a ação subir antes mesmo de o investidor ler o relatório. A coreografia é conhecida: empresa entrega número acima do consenso, banco de investimento publica nota elogiosa, gestor de fundo aperta o botão de compra, e o ciclo se retroalimenta. Ninguém para para perguntar o que de fato sustenta a tese.

O detalhe que escapa do release otimista é trivial e devastador ao mesmo tempo. A nCino vende software para o sistema bancário, que por sua vez é o setor mais regulado, mais protegido e mais subsidiado da economia ocidental. Cada exigência de compliance que um regulador inventa em Washington ou em Bruxelas vira linha de receita recorrente para fornecedores como ela. Quanto mais o Estado regula o banco, mais o banco precisa contratar software para cumprir regulação, e mais a nCino fatura. É um modelo de negócio que prospera na proporção exata em que a burocracia avança. Não é capitalismo, é simbiose com o aparato regulatório.

Olha, vamos seguir o dinheiro com calma. O banco repassa o custo do software para o cliente final via tarifa, via spread, via taxa de manutenção de conta. O cliente final paga a conta sem nunca saber que está bancando, em última instância, a margem de uma empresa de tecnologia listada em Nova York que ele jamais ouviu falar. Quando o banco central imprime dinheiro e infla o sistema financeiro, esse mesmo cliente paga de novo, agora via perda de poder de compra. A festa do outperform tem um financiador silencioso: o sujeito que recebe salário em moeda fiduciária e usa conta corrente porque não tem alternativa legal.

Quer dizer, o tal resultado sólido nada mais é do que a tradução contábil de uma realidade política. Bancos americanos estão sendo empurrados goela abaixo de novas exigências de relatório, de novas regras de capital, de novas auditorias automatizadas, e alguém precisa entregar a engrenagem que faz tudo isso rodar sem o gerente local enlouquecer. A nCino entrega a engrenagem e cobra caro. O analista chama de moat competitivo. Em português claro, chama-se renda extraída por intermediação regulatória, e existe porque o Estado decidiu que o setor financeiro precisa de mil camadas de controle que nenhum cliente jamais pediu.

Há ainda a parte que ninguém comenta nas conferências, aquela que o gráfico de receita recorrente esconde. Toda vez que uma fintech tenta entrar no mercado oferecendo serviço mais barato, ela esbarra exatamente na mesma muralha regulatória que sustenta a nCino. O custo de compliance vira barreira de entrada, a barreira de entrada protege os incumbentes, os incumbentes pagam o software, e o consumidor segue refém. O rating de outperform não está medindo eficiência, está medindo a profundidade do fosso que separa o setor protegido do resto da economia. É um termômetro do quanto a liberdade econômica regrediu, vendido como indicador de saúde corporativa.

Me diz uma coisa, qual a probabilidade de essa receita continuar crescendo se algum dia o Ocidente resolver desregular o sistema bancário a sério, abrir concorrência de verdade, permitir moeda alternativa sem perseguição fiscal? Praticamente zero. E é exatamente por isso que o analista dorme tranquilo recomendando a ação. Ele sabe que o Estado regulador não recua nunca, que cada crise gera dez novas regras, que cada nova regra alimenta o caixa do fornecedor de software de compliance. A tese de investimento da nCino, no fundo, é uma aposta cínica e lucrativa contra a liberdade econômica. E enquanto durar, vai dar dinheiro.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.