A Omega Healthcare Investors fechou pregão na máxima histórica de US$ 49,17 e o coro habitual saiu repetindo o mantra do "fundamento sólido", "dividendo robusto", "setor resiliente". Tudo verdade no papel, tudo enganoso na essência. A Omega é um REIT especializado em arrendar imóveis para operadores de skilled nursing facilities, ou seja, casas de repouso para idosos doentes demais para morrer em casa e baratos demais para morrer em hospital. O modelo é elegante: a empresa não cuida de ninguém, apenas aluga o prédio para quem cuida, e quem cuida é pago, no fim da cadeia, por programas federais. O acionista recebe yield de quase oito por cento. O contribuinte americano recebe a fatura. Alguém precisa explicar onde está o mercado livre nessa equação.
Quer dizer, quando o preço de uma ação sobe porque o fluxo de caixa do inquilino é garantido pelo Medicaid e pelo Medicare, o que está sendo precificado não é eficiência produtiva, é capacidade política de manter a torneira aberta em Washington. O investidor sofisticado sabe disso e age de acordo: compra Omega como quem compra título do Tesouro com rendimento turbinado, sabendo que enquanto houver Congresso americano com medo de cortar benefício de idoso em ano eleitoral, o cheque chega. É a transformação silenciosa do capitalismo de risco em capitalismo de garantia estatal, e o resultado é sempre o mesmo: lucro privado, risco socializado, conta para o pagador de imposto que talvez nem chegue à idade de usufruir o serviço que financiou a vida inteira.
Olha, o pano de fundo é demográfico e ninguém quer olhar de frente. Os baby boomers estão entrando na faixa dos oitenta anos em ritmo industrial, e a família americana, desfeita por cinco décadas de welfare state, expansão imobiliária e dissolução do vínculo geracional, não tem mais onde colocar a vovó. A vovó vai para o nursing home. O nursing home cobra do governo. O governo paga emitindo dívida. A dívida americana acaba de ultrapassar trinta e seis trilhões de dólares, e cada idoso institucionalizado é uma linha nesse balanço que ninguém pretende reduzir. A Omega não criou esse problema; ela apenas montou o melhor produto financeiro para capturar o subsídio em escala. É genial e é grotesco ao mesmo tempo.
Me diz uma coisa, o que aconteceria com essa máxima histórica se Washington decidisse cortar dez por cento dos reembolsos do Medicaid amanhã de manhã? A ação despencaria antes do almoço, e os mesmos analistas que hoje recomendam compra estariam explicando que o "ambiente regulatório se deteriorou". Pois bem, o ambiente regulatório é exatamente o que sustenta o preço. Não existe Omega a quarenta e nove dólares sem Estado interventor, sem programa federal de saúde, sem a engenharia fiscal que transfere recursos de quem produz para quem administra a decadência. O investidor que compra Omega está, na prática, comprando uma fatia da incapacidade política americana de reformar seus programas de welfare. É um curto que aposta contra a coragem do Congresso, e até hoje sempre ganhou.
Há ainda a camada moral que ninguém comenta porque dá voto e dá dinheiro a quem ignora. Uma civilização que financeiriza o cuidado dos seus velhos, que transforma o último suspiro em rendimento trimestral distribuído a cotistas, está dizendo algo sobre si mesma que talvez prefira não ouvir. Não é maldade do gestor da Omega, que cumpre seu dever fiduciário com competência. É a deformação de um arranjo social que terceirizou para o Estado o que era responsabilidade da família, e depois terceirizou para Wall Street o que era responsabilidade do Estado. No fim da fila, sempre, está alguém que paga e não decide, e alguém que decide e não paga.
A máxima histórica de hoje vai virar o piso de amanhã enquanto a impressora rodar e a demografia empurrar. Mas todo arranjo construído sobre subsídio infinito tem um vencimento que ninguém marca no calendário, e quando ele chega, o ajuste não é gradual, é abrupto. O acionista esperto sabe disso e já calculou sua saída. O contribuinte distraído acha que está vendo prosperidade. Está vendo, na verdade, a conta sendo somada na sua frente, com juros compostos, em letras pequenas que ele nunca foi convidado a ler.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.