A ação da Penumbra encostou em US$ 328,69, máxima de 52 semanas, e o detalhe que ninguém comenta na mesa de operações é o seguinte: trata-se de uma empresa que fabrica dispositivos para retirar coágulos de dentro do cérebro humano em vítimas de AVC isquêmico. Quer dizer, alguém numa sala de pesquisa decidiu que era possível enfiar um cateter pela virilha de um paciente, navegar pela carótida e sugar o trombo antes que o tecido cerebral morresse. Esse alguém, com capital privado, risco privado e prejuízo privado durante anos a fio, agora vê o mercado precificar o resultado. Nenhum ministério criou isso. Nenhum comitê interministerial aprovou. Nenhuma agenda 2030 foi consultada.
E aqui mora a parte que o noticiário econômico brasileiro insiste em não enxergar. A valorização de uma empresa como essa não é "especulação", não é "bolha", não é "ganância de Wall Street". É a tradução numérica de um fato civilizatório: gente está vivendo que morreria, e está vivendo com função neurológica preservada. O preço da ação é a forma rude e honesta com que milhões de investidores anônimos, cada um com seu pedacinho de conhecimento e seu pedacinho de dinheiro, dizem em coro que aquilo ali vale a pena ser produzido em maior escala. Nenhum planejador central, por mais doutorado que tenha, conseguiria chegar a esse número. Ele emerge.
Compare, por favor, com o teatro tupiniquim. Enquanto a Penumbra rompe topo histórico vendendo solução para AVC, o investidor brasileiro continua treinado a achar que o auge da inteligência financeira é travar 14% ao ano numa LCA isenta, dinheiro emprestado ao governo que vai usar essa mesma grana para subsidiar montadora, financiar Refis de devedor contumaz e bancar passagem de ministro em primeira classe. Você empresta para o Leviatã, ele te devolve com juros pagos pelo próximo contribuinte, e todo mundo finge que isso é "investimento". Não é. É elo numa corrente de Ponzi institucionalizada que se chama dívida pública.
O contraste é pedagógico. De um lado, capital migrando para quem resolve trombose cerebral; de outro, capital migrando para quem rola trombose fiscal. Um cria valor onde não havia, outro consome valor que outros criaram. E note a sutileza: a Penumbra só pôde existir porque, em algum lugar do mundo, ainda sobra um ambiente regulatório que permite a uma empresa pequena ousar contra gigantes consolidados, captar em bolsa, errar, acertar, ser comprada, ser vendida, ser destruída pela concorrência se vacilar. Esse ambiente está em extinção, inclusive lá fora, mas ainda respira o suficiente para gerar gráficos como o de hoje.
Há ainda a lição que o jornalismo econômico de cá nunca digere. Quando a ação sobe assim, não é porque "os ricos ficaram mais ricos", clichê preguiçoso que substitui análise por ressentimento. É porque fundo de pensão de professor americano, plano de previdência de soldador texano e poupança de aposentado de Ohio ficaram, todos juntos, um pouco menos pobres. Mercado de capitais funcional democratiza ganho real. Mercado de capitais sequestrado por título público concentra renda no andar de cima do Tesouro e nos balcões dos bancos credenciados. Adivinhe qual modelo o Brasil escolheu nos últimos quarenta anos.
A moral da história não está no preço de US$ 328,69, está no que esse preço significa. Significa que ainda existe, em algum canto do planeta, gente apostando capital próprio em problema concreto, sem pedir licença para conselho consultivo, sem implorar isenção para o secretário da Fazenda, sem precisar de carta de intenções do BNDES. E significa, sobretudo, que enquanto continuarmos confundindo riqueza com gastança pública, vamos seguir aplaudindo a Selic alta como se fosse vitória, enquanto o mundo lá fora, silenciosamente, vai construindo o futuro sem nos avisar.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.