A Semtech fechou em US$ 149,34, novo topo histórico, e basta abrir qualquer terminal de notícias para ver o coro de analistas batendo palma como se tivessem descoberto a roda. A fabricante de semicondutores cavalga a onda de tudo que tem a palavra mágica do momento, conectividade, internet das coisas, inteligência artificial, data center, qualquer substantivo que faça o gestor de fundo babar no teclado. O problema não é a empresa, que aliás tem produto real e clientes reais, coisa que nem toda queridinha do Nasdaq pode dizer. O problema é o ritual coletivo de fingir que preço de ação reflete valor intrínseco, quando reflete, na verdade, o último humor da multidão.
Olha, todo mundo que viveu mercado por mais de dois ciclos sabe identificar o cheiro. É o mesmo perfume de 1999, quando qualquer empresa que colocasse ponto-com no nome via o papel triplicar numa tarde. É o mesmo aroma de 2021, quando SPAC virou sinônimo de dinheiro grátis e ninguém perguntava o que a empresa fazia, bastava saber que ia abrir capital. A Semtech pode ser excelente, pode entregar resultado, pode justificar parte da euforia, mas a euforia em si não está olhando para o balanço. Está olhando para o gráfico subindo e extrapolando reta para o infinito, esquecendo que reta nenhuma na natureza econômica sobe para sempre.
Me diz uma coisa, de onde vem essa enxurrada de dinheiro que empurra ações de semicondutores para máximas históricas semana após semana? Não vem de poupador frugal economizando salário, isso eu garanto. Vem da liquidez monstruosa despejada por bancos centrais que passaram quinze anos imprimindo dinheiro para combater crises que eles mesmos fabricaram, e agora reabrem a torneira ao menor sinal de desaceleração. Esse dinheiro precisa pousar em algum lugar, e pousa onde a narrativa é mais sedutora, criando ilhas de inflação de ativos que ninguém chama de inflação porque, afinal, ação subindo é considerado bênção, não doença.
O resultado prático dessa engenharia é que o investidor pequeno, aquele que recebeu o décimo terceiro e quer aplicar com seriedade, chega à festa quando o salão já está cheio e os garçons já recolhem os copos. Compra no topo, vende no fundo, e depois culpa a sorte, a Bolsa, o presidente, o vizinho. Não percebe que o jogo é estruturalmente desenhado para que o dinheiro frio dos institucionais saia em ombros dos otimistas de última hora. Cada máxima histórica celebrada na imprensa financeira é um convite educado para que o boi entre no caminhão achando que vai para o piquenique.
Quer dizer, nada disso significa que a Semtech vá despencar amanhã, nem que semicondutor seja bolha pura, nem que o investidor deva fugir de tecnologia. Significa apenas que cotação de ação é fotografia momentânea de psicologia coletiva, e psicologia coletiva é a coisa mais volátil que existe sob o sol. Quem aplica baseado em manchete de máxima histórica está comprando manchete, não empresa. E manchete, todo mundo que trabalha em redação sabe, é descartável por definição, feita para vender o jornal de hoje e ser embrulho de peixe amanhã.
A lição, se é que alguém ainda escuta lições nesse mercado de TikTok financeiro, é que valor se constrói pelo lucro real, pela capacidade de gerar caixa, pela vantagem competitiva durável, e não pela posição relativa de uma linha num gráfico de cinco minutos. Quando o entusiasmo de hoje virar ressaca de amanhã, e vai virar, porque sempre virou, os que ficarem com o papel na mão descobrirão, tarde demais, que máxima histórica é só o nome bonito do ponto onde quem entendia do jogo decidiu sair.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.