A ação da Silicon Motion Tecnologia cravou US$ 251,87 nesta semana, máxima histórica da companhia que fabrica os controladores que fazem os SSDs do mundo inteiro funcionarem. Não é bolha, não é meme, não é hype de inteligência artificial empacotado para boi-zebu engolir na bolsa. É uma empresa que entrega um componente físico, mensurável, indispensável, e que vem surfando a explosão da demanda por armazenamento em data centers, automóveis e dispositivos de borda. O preço, ao contrário do que dizem os economistas de boteco, não subiu por mágica nem por manipulação. Subiu porque milhões de pessoas, espalhadas pelo planeta, decidiram simultaneamente que aquele pedaço de silício vale mais hoje do que valia ontem. Ponto.
Olha, o ponto que ninguém quer enxergar é o seguinte. Empresas como a Silicon Motion existem, prosperam e disparam em valor justamente porque operam em ambientes onde o capital pode fluir, o lucro pode ser reinvestido e o sucesso não é tratado como crime burguês a ser expiado via tributação confiscatória. Taiwan, com toda a tensão geopolítica que carrega nas costas, oferece ao empreendedor algo que o Brasil há décadas considera supérfluo: previsibilidade jurídica e tributação civilizada. O resultado está aí, cotado em dólar forte, batendo recorde enquanto a B3 patina e o investidor brasileiro paga 15% de imposto sobre ganho de capital depois de já ter pago imposto sobre o salário que originou o investimento.
Me diz uma coisa, quem é que ganha quando uma ação dessas dispara? Os fundos de pensão americanos, os pequenos investidores asiáticos, os family offices europeus e, sim, alguns poucos brasileiros que tiveram a ousadia de furar o cerco cambial e abrir conta lá fora. Quem fica de fora? O brasileiro médio, aquele que economizou a vida inteira e foi convencido pelo seu gerente do banco de que renda fixa atrelada ao CDI é "investimento seguro", quando na verdade é um esquema engenhoso para financiar a dívida pública a juros reais que, depois da inflação real e dos impostos, mal preservam o poder de compra. O dinheiro do brasileiro não compra Silicon Motion. Compra LFT, financiando a próxima farra orçamentária de Brasília.
E aqui chegamos ao ponto que dói. Toda vez que uma empresa de tecnologia atinge máximas históricas no exterior, surge no Brasil aquele coro afinadíssimo de comentaristas explicando que "o mercado está irracional", que "isso é especulação", que "o capitalismo financeiro está descolado da economia real". É a velha tática de transformar a inveja institucional em diagnóstico técnico. A verdade é mais simples e mais constrangedora: o capital vai para onde é tratado com respeito, e foge de onde é tratado como suspeito permanente. Enquanto uma fabricante de chips em Taipei vira referência global, aqui se discute taxar dividendos, criar imposto sobre fortunas e criminalizar a operação de offshore de quem teve o atrevimento de proteger o próprio patrimônio.
Há uma lição na máxima da Silicon Motion que vai muito além do gráfico. Em algum momento dos últimos vinte anos, alguém apostou naquela empresa quando ela ainda era pequena, ilíquida, desconhecida. Esse alguém arriscou capital próprio, suportou volatilidade, atravessou crises, e agora colhe. É o ciclo virtuoso da poupança transformada em investimento, do investimento transformado em produção, da produção transformada em prosperidade. Esse ciclo, no Brasil, foi sequestrado. A poupança vira dívida pública, a dívida pública vira gasto corrente, o gasto corrente vira voto, e o voto vira mais imposto para o cidadão que ousou poupar. Inverteram o sentido da seta e chamaram de "justiça social".
O recorde da Silicon Motion não é só uma notícia de mercado. É um espelho. E o reflexo que aparece nele, para quem tem coragem de olhar, é o de um Brasil que escolheu, sucessivas vezes, punir quem produz para premiar quem promete. O preço dessa escolha não está numa cotação qualquer. Está no tamanho da economia que poderíamos ter sido e não fomos.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.