A ACCO Brands divulgou resultado acima do consenso dos analistas no primeiro trimestre de 2026, e a manchete vendida ao investidor distraído é a de sempre, empresa supera expectativas, ações reagem, executivos sorriem na teleconferência. Quem leu a letra miúda, porém, viu o que realmente aconteceu. A receita não cresceu porque a empresa convenceu mais gente a comprar caderno, grampeador ou pasta arquivo. Cresceu porque a empresa engoliu uma concorrente e somou o faturamento dela ao seu. É o truque mais antigo do capitalismo financeirizado, e ainda funciona porque a maioria dos analistas confunde tamanho com saúde.
Olha, há uma diferença abissal entre crescer porque o consumidor te escolheu e crescer porque você comprou quem ele escolhia antes. No primeiro caso, o mercado validou seu produto. No segundo, você apenas trocou capital por participação de mercado, e o consumidor sequer foi consultado. O resultado contábil é idêntico, a receita aumenta nos dois cenários, mas o significado econômico é oposto. Um é sinal de vitalidade, o outro é sinal de que a vitalidade orgânica acabou e agora só resta engolir o vizinho enquanto há crédito barato disponível.
E aqui é onde a coisa fica interessante para quem segue o dinheiro. Aquisições corporativas em escala industrial não brotam do nada. Elas florescem quando o custo do capital está artificialmente baixo, quando a impressora monetária dos bancos centrais inundou o sistema de liquidez, quando empresas grandes conseguem tomar emprestado a juros que pequenas e médias jamais sonhariam. O resultado é uma concentração de mercado que os manuais de economia ensinam a temer, mas que a política monetária frouxa subsidia silenciosamente há duas décadas. Não é capitalismo de livre concorrência, é capitalismo de balanço inflado por crédito barato.
O consumidor, esse sujeito esquecido em toda análise de earnings call, paga a conta de duas formas. Primeiro, perde opções, porque cada fusão reduz o número de fornecedores disputando seu bolso. Segundo, paga via inflação, porque o dinheiro que financiou a aquisição não veio de poupança real, veio da expansão monetária que corrói o poder de compra de quem recebe salário. A empresa celebra sinergia, o acionista celebra dividendo, e o trabalhador celebra que a margarina aumentou só vinte por cento este ano. Cada um na sua celebração.
Há ainda o detalhe que ninguém comenta nas teleconferências, o que se vê e o que não se vê. Vê-se a receita consolidada subindo, vê-se o EBITDA ajustado batendo guidance, vê-se a ação reagindo positivamente no after market. Não se vê a empresa adquirida que deixou de existir como concorrente, não se veem os funcionários demitidos em nome da tal sinergia, não se veem os pequenos fornecedores que perderam seu segundo cliente porque agora só sobrou um, e esse um dita preço. A contabilidade financeira mostra o lucro, a contabilidade econômica mostraria o estrago, mas essa ninguém publica.
Quer dizer, comemorar trimestre de uma empresa de material de escritório que cresce comprando rival num mercado em contração estrutural, com gente migrando para o digital há quinze anos, é o equivalente a aplaudir o sujeito que ganha peso comendo o jantar do irmão. Tecnicamente, ele engordou. Economicamente, a família continua com a mesma comida na geladeira, só que agora com um obeso e um faminto. O mercado vai descobrir isso quando o crédito secar, e aí a tal supercompradora vai precisar explicar como pretende pagar a dívida sem ter aprendido a vender mais grampeador.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.