Quatrocentos petroleiros retidos. O número saiu da boca do homem mais poderoso do planeta, num evento para a terceira idade, como quem comenta o resultado do bingo. Não há quatrocentos petroleiros retidos em Ormuz. Não há cinquenta. Em dia movimentado, passam pelo estreito algo entre vinte e trinta navios-tanque, somando todo o tráfego diário, e a maioria continua passando. Mas o detalhe aritmético é o de menos. O que importa é o efeito da frase: cada vez que um chefe de Estado abre a boca sobre Ormuz, o barril sobe, o dólar mexe, e bilhões trocam de mão antes que o estagiário do Bloomberg termine de digitar a manchete.

Olha, existe um padrão antigo nesse tipo de teatro. O governante precisa justificar tropas em solo estrangeiro, precisa justificar gasto militar, precisa justificar a próxima leva de contratos com a indústria bélica, e nada justifica melhor do que a sensação de iminência catastrófica. "Não vamos sair antes do tempo e deixar o problema voltar", diz ele. Que problema? Quem definiu o tempo? Quem definiu que aquele pedaço de mar do outro lado do mundo é problema americano a ser resolvido com porta-aviões financiados por contribuinte do Texas e do Ohio? A resposta nunca aparece no discurso, porque a resposta envolve nomes específicos de empresas específicas que faturam especificamente quando o Pentágono fica nervoso.

Quer dizer, há uma engenharia perfeita aqui que vale a pena desmontar com calma. O Estado decreta a crise, o mercado precifica a crise, o consumidor paga a crise no posto, e a indústria que fornece soluções para a crise lucra com a crise. É o ciclo virtuoso do compadrio militar-industrial, e ele depende de uma única matéria-prima inesgotável: a credulidade pública. Cada cidadão que acredita piamente que quatrocentos petroleiros estão presos em algum lugar é um cidadão que aceita pagar mais caro pela gasolina, mais caro pelo imposto que financia as tropas, e mais caro pela inflação que vem atrás da gastança bélica. Três pedágios na mesma estrada, cobrados pela mesma autoridade, em nome da mesma fantasia.

E não se engane achando que o Irã é o vilão original do enredo. O Irã é o vilão útil, que é coisa diferente. Vilão útil é aquele que você precisa que continue ali, ameaçador o suficiente para justificar o orçamento, mas nunca perigoso o bastante para forçar uma decisão definitiva. O dia em que Teerã cair, cai junto a desculpa para metade da estrutura militar americana no Golfo, e ninguém em Washington está ansioso por isso. Por isso a guerra nunca acaba e nunca começa de fato. Ela vive num limbo eterno, alimentada por declarações imprecisas em eventos para idosos, porque é nesse limbo que o dinheiro flui melhor.

O que o brasileiro precisa entender, sentado aqui no fim do mundo vendo a Petrobras reajustar combustível pela quinta vez no ano, é que cada palavra mal calibrada de um presidente americano sobre Ormuz é importada para o seu bolso com pontualidade suíça. A globalização do mercado de petróleo significa que a fantasia geopolítica de um octogenário em campanha vira preço real na bomba do posto da esquina em menos de quarenta e oito horas. Não há fronteira que proteja o consumidor brasileiro da retórica imperial. Não há soberania monetária que neutralize a impressão de medo no preço do barril. O cidadão é refém do espetáculo, e o espetáculo precisa de novos episódios todo dia.

A lição é antiga e nunca foi tão atual. Toda vez que um governante invoca uma ameaça externa com números redondos e dramáticos, vale parar e perguntar quem ganha com aquela ameaça permanecendo no ar. A resposta raramente é o povo que ouve o discurso. A resposta quase sempre é uma combinação previsível de empreiteiros militares, lobistas, fundos especializados em commodities e a própria classe política que extrai legitimidade do estado de exceção contínuo. Quatrocentos navios é chute. O pedágio que você paga por causa do chute é absolutamente real.

Com informações da InfoMoney. A análise e opinião são do O Algoz.