A assembleia anual da ACCO Brands aprovou o plano de incentivos de longo prazo da companhia e reelegeu o time de diretores indicado pela própria administração. Tudo dentro do roteiro previsível das corporações americanas listadas, em que a votação tem o suspense de um filme cuja última cena vazou antes da estreia. Os pacotes envolvem stock options, ações restritas e bônus atrelados a métricas que, por uma coincidência impressionante, costumam ser atingidas justamente quando a recompensa está em jogo.

Olha, ninguém aqui é contra remunerar bem quem entrega resultado. O capitalismo verdadeiro premia quem cria valor, é assim que funciona. O problema começa quando a remuneração executiva deixa de ser um contrato entre dono e empregado e vira um arranjo entre gestores profissionais e conselhos cheios de amigos, padrinhos e ex-colegas, todos sentados na mesma mesa decidindo o tamanho do próprio salário enquanto o acionista pulverizado lá fora aperta o botão de aprovação sem entender direito o que está aprovando.

Siga o dinheiro. A ACCO opera num setor maduro, com produtos commoditizados, margem apertada e ações que andam de lado há anos. Mesmo assim, o pacote de incentivo continua robusto, blindado contra a realidade operacional, indexado a metas ajustáveis e renegociáveis sempre que o vento sopra contra. É o velho truque do alvo móvel: se a flecha não acerta, mude o alvo de lugar e diga que acertou. O ônus da volatilidade fica com quem comprou o papel apostando em valorização; o bônus da gestão fica garantido por contrato, mesmo quando o gráfico desenha um caixão.

Me diz uma coisa, em que outro mercado funcionaria assim? Imagine o dono da padaria da esquina contratando um gerente que escreve o próprio contrato, define as próprias metas e ainda elege seus parentes para fiscalizá-lo. Você fecharia em uma semana. Mas no mundo das corporações de capital pulverizado, com milhões de acionistas dispersos e nenhum deles dono de verdade, esse arranjo virou regra e foi rebatizado de boa governança. A palavra governança aliás merece aposentadoria, virou senha mágica para esconder conluio com fachada institucional.

O detalhe que ninguém comenta é o efeito de longo prazo dessa dinâmica sobre a própria ideia de propriedade. Quando o acionista vira figurante de uma assembleia coreografada, a empresa deixa de ser dele em qualquer sentido prático e passa a ser feudo de uma casta gerencial que se autoperpetua. O capitalismo de mercado, aquele que enriqueceu civilizações, depende de proprietários ativos que arriscam capital próprio e exigem retorno. O que se vê hoje é outra coisa, é um capitalismo de gestor profissional financiado por aposentado anônimo via fundo de pensão, e o gestor sempre ganha, ganhando a empresa ou perdendo a empresa.

Enquanto isso, o consumidor americano paga mais caro pelo caderno do filho, o varejista briga por dois centavos de margem, e os executivos da ACCO comemoram mais um ciclo de incentivos aprovado por unanimidade. A festa continua, a banda toca, e a conta, como sempre, fica para quem não foi convidado para dançar.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.