A Atlanticus Holdings, conglomerado financeiro americano que vive de cobrar juros de subprime fantasiados de crédito ao consumidor, realizou sua assembleia anual e, com a previsibilidade de um relógio suíço, elegeu sete diretores. Não houve disputa, não houve dissidência, não houve sequer suspense. Houve protocolo. E o protocolo, no mundo das holdings de capital aberto, é o nome elegante que se dá ao consenso fabricado entre os mesmos sujeitos que se sentam nas mesmas cadeiras há tantos ciclos que ninguém mais lembra de quando começou.
O leitor desavisado pode achar que assembleia de acionistas é exercício de democracia corporativa, aquela história bonita do dono votando, do mercado se autorregulando, do capital alocando incentivos. Olha, na prática funciona assim: fundos de pensão, gestoras passivas e custodiantes recebem procurações automáticas, votam conforme a recomendação do board, e o board recomenda a si mesmo. É o ouroboros financeiro, a serpente que come o próprio rabo enquanto cobra taxa de administração para fazer isso. Quem paga a conta? O cotista anônimo que nem sabe que tem ação da Atlanticus dentro de um ETF qualquer no seu plano de aposentadoria.
E o que faz a Atlanticus, afinal? Empresta dinheiro caro para quem não tem crédito em banco, empacota essa carteira como ativo financeiro sofisticado, e distribui o risco entre investidores que confiam no rating. Quando a coisa funciona, os sete diretores recebem bônus polpudos e são reeleitos. Quando a coisa quebra, e a história mostra que sempre quebra em algum momento do ciclo, o contribuinte americano descobre que aquele negocinho de nicho era na verdade sistêmico, e o Federal Reserve aparece com a mangueira de liquidez. Privatizam-se os lucros, socializam-se os prejuízos, e a próxima assembleia reelege os mesmos sete.
Me diz uma coisa: em que outro setor da economia você consegue errar, quebrar a empresa, ser resgatado com dinheiro alheio e continuar no cargo? Tente isso numa padaria. Tente isso numa oficina mecânica. O padeiro que vende pão mofado fecha as portas na semana seguinte porque o cliente vota com os pés todos os dias, não uma vez por ano numa assembleia coreografada. O mercado financeiro construiu uma engenharia tão sofisticada de proteção contra suas próprias consequências que conseguiu blindar a incompetência com camadas de procuração, comitê de auditoria e relatório ESG.
O capitalismo de verdade, aquele que enriquece nações e dá pão ao trabalhador, depende de uma coisa simples: quem decide tem que sentir na pele o resultado da decisão. Quando a decisão é tomada por sete sujeitos que não arriscaram um centavo do próprio bolso, votados por gestores que administram dinheiro de outros, fiscalizados por auditores pagos pela empresa fiscalizada, o que se tem não é capitalismo, é uma forma elegante de feudalismo financeiro com terno italiano e champanhe na sala de reuniões.
Sete cadeiras, sete reeleições, zero perguntas incômodas. O que se vê é a estabilidade da governança. O que não se vê é o consumidor pagando vinte e nove por cento ao ano num cartão de loja para sustentar o coquetel da próxima assembleia. E ninguém vota nisso.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.