Houve assembleia, houve voto, houve ata, e no fim do dia o conselho que sentou na cadeira é o mesmo que já estava sentado, e a remuneração que os executivos receberão é exatamente aquela que os próprios executivos sugeriram ao comitê que o próprio conselho escolheu. Está tudo dentro da lei, está tudo nos formulários da SEC, está tudo carimbado pelos advogados, e é exatamente por isso que merece atenção. Quando o ritual fica perfeito, é porque a substância já morreu faz tempo.

O acionista pulverizado de um banco regional americano é uma figura curiosa. Ele tem, no papel, o poder soberano de uma monarquia constitucional; tem, na prática, o poder de aplaudir. Vota em uma chapa única, decide sobre pacotes de remuneração que ele jamais teria a paciência ou os dados para contestar, e confia que algum fundo de pensão do outro lado do país fará o trabalho sujo de questionar. Esse fundo de pensão, claro, é dirigido por executivos cuja remuneração é decidida por conselhos similares. Uma mão lava a outra, e ambas saem caríssimas.

Repare na engenharia da coisa. O conselho indica o comitê de remuneração. O comitê de remuneração contrata uma consultoria especializada em remuneração. A consultoria, que vive de servir conselhos, recomenda um pacote dentro da média do setor. A média do setor sobe ano após ano porque cada conselho contrata a mesma consultoria, que recomenda algo sempre um pouquinho acima da média anterior, e assim a média anterior vira piso da próxima rodada. É uma escada rolante salarial em que ninguém precisa empurrar; ela sobe sozinha enquanto o acionista olha pela janela.

O leitor desavisado pode perguntar onde está o problema, afinal trata-se de empresa privada, de dinheiro privado, de gente livre contratando gente livre. A resposta exige enxergar o que está fora da fotografia. Um banco regional não opera no vácuo do mercado; opera dentro do guarda-chuva de garantias federais, de seguro de depósitos, de janelas de liquidez do Federal Reserve, de regulação que sufoca o pequeno concorrente e protege o incumbente do desafio do entrante. Quando o risco é socializado e o lucro é privatizado, o pacote de remuneração deixa de ser assunto interno e passa a ser, no limite, uma forma sofisticada de transferência de renda de quem paga imposto para quem paga a si mesmo.

Há ainda a dimensão moral, que é a que ninguém quer tocar porque dá trabalho. Caráter, dizia a sabedoria antiga, se revela pelas ações, não pelos discursos. A reunião de acionistas é justamente o momento em que o discurso da boa governança encontra a ação do voto, e a ação do voto é unanimidade entusiástica nos itens que beneficiam quem propôs os itens. Não é corrupção no sentido criminal; é coisa pior, é a domesticação do dissenso, a transformação da fiscalização em liturgia, a substituição do controle pela cerimônia. Uma instituição que perde a capacidade de discordar de si mesma já assinou a própria sentença, só falta cumprir.

O que esse pequeno banco do Alabama mostra é apenas a versão miniatura de uma doença que contamina o capitalismo financeiro contemporâneo, e que tem nome técnico bonito, capitalismo gerencial, mas que na prática é o velho compadrio de sempre, agora vestido de paletó cinza e armado de PowerPoint. Os donos do dinheiro perderam o controle do dinheiro para os administradores do dinheiro, e os administradores do dinheiro convenceram os donos de que isso é modernidade. Enquanto isso, o cidadão comum, que nunca pisou em uma assembleia, paga a conta toda vez que um desses arranjos elegantes desanda e o resgate vira política pública. A próxima crise bancária, quando vier, não nascerá da ganância dos executivos; nascerá do silêncio dos acionistas.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.