A Bio-key International, empresa de autenticação biométrica que vinha sendo negociada por centavos na Nasdaq, conseguiu o feito heroico de fazer seus próprios acionistas votarem a favor de um grupamento de ações. Tradução para quem ainda não foi iniciado no dialeto de Wall Street: pegue dez ações que valem dez centavos cada e transforme em uma ação que vale um dólar. O número de zeros no patrimônio do investidor permanece exatamente o mesmo, mas agora a corretora pode continuar listando o papel sem o constrangimento de ele estar abaixo do preço mínimo regulatório.

Quem olha de fora e não conhece o teatro pensa que houve valorização. Quem olha de dentro sabe que houve cosmética. O grupamento de ações, ou reverse split no jargão importado, é a manobra clássica de empresas que entraram na zona de penny stocks e estão prestes a ser deslistadas. A bolsa exige preço mínimo, o preço mínimo não vem por mérito operacional, então vem por engenharia matemática. É a versão financeira de pintar a parede mofada em vez de tratar a infiltração.

O que ninguém diz na ata da assembleia é que esse tipo de operação raramente salva a empresa. As estatísticas são cruéis com quem recorre ao expediente: a esmagadora maioria das companhias que fazem grupamento continua despencando depois, agora a partir de um patamar artificialmente elevado, o que dá a cada queda subsequente um sabor ainda mais amargo. O acionista que tinha dez mil ações de centavo agora tem mil ações de um dólar, e quando o papel volta para vinte centavos, ele descobre que perdeu oitenta por cento do que já valia pouco.

Há aqui uma lição mais ampla sobre o capitalismo de papel que confundimos com capitalismo de verdade. Empresa séria não precisa multiplicar e dividir números para parecer viva; ela gera caixa, entrega produto, conquista cliente. Quando a engenharia financeira vira a principal atividade da diretoria, o jogo já está perdido, só falta alguém ter coragem de avisar o último investidor que ainda acredita na história. E note a beleza do arranjo: quem decide o grupamento são os mesmos administradores que dirigiram a empresa até o precipício, agora pedindo um voto de confiança para uma ilusão de ótica.

A pergunta que o pequeno investidor deveria fazer, e que raramente faz, é por que ele está sendo convocado para aprovar uma medida que não muda absolutamente nada na realidade econômica do negócio. A resposta é simples e desconfortável: porque a alternativa, encarar que o investimento foi um erro, é dolorosa demais. É mais fácil votar sim, manter a esperança, fingir que o grupamento é início de recuperação. O mercado livre tem essa virtude implacável de revelar a verdade no longo prazo, mesmo quando a engenharia contábil tenta adiá-la por mais um trimestre.

Quem comprou Bio-key apostando em revolução biométrica está descobrindo agora que comprou prospecto, não empresa. E nenhum grupamento, por mais bem aprovado que seja em assembleia, transforma promessa em fluxo de caixa. O preço sobe no monitor, o valor continua onde sempre esteve: no chão.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.