A votação foi protocolar, o resultado já estava cozinhado em sala fechada meses antes, e o comunicado oficial veio recheado daquele vocabulário corporativo que serve para sedar a desconfiança alheia. Calavo e Mission, duas das maiores operadoras de abacate do planeta, agora viram uma só. Sinergias, escala global, eficiência logística, criação de valor para o acionista. Tudo muito bonito no papel timbrado. Olha, quando dois concorrentes diretos resolvem deitar na mesma cama e chamam isso de eficiência, é porque a eficiência que importa para eles é a de não precisar mais competir entre si.
O abacate, esse fruto que virou commodity de classe média global na última década, não chegou ao seu preço atual por mágica. Há toda uma cadeia que vai do pequeno produtor mexicano, peruano e colombiano, passa por embaladoras, atravessa fronteiras, paga seguros, distribuidores, varejistas, até desembarcar no guacamole do brunch paulistano ou na torrada do hipster de Los Angeles. Quem aperta esse pescoço em cada elo da corrente fica com a margem. E quanto menos players apertando, mais concentrada a mão que aperta. Fusão de gigantes é exatamente isso: menos mãos, aperto mais forte.
Quem vai sentir primeiro é o produtor lá na ponta, aquele que enche o caminhão de madrugada e reza para que o comprador não invente uma desculpa para baixar o preço pago no quilo. Com dois compradores grandes brigando pela mercadoria dele, havia ao menos a fricção saudável de quem precisava ser competitivo no preço de aquisição. Com um comprador único dominando o jogo, o produtor vira refém. Aceita o que oferecem ou apodrece a colheita no galpão. Isso não é teoria, é a história repetida de toda concentração agroindustrial das últimas décadas, do café ao cacau, do açúcar ao leite.
Do outro lado da cadeia, o consumidor recebe a fatura disfarçada. Não vem como aumento súbito, vem como aquela elevação silenciosa de cinco centavos aqui, dez ali, que ninguém nota individualmente, mas que ao fim do ano transferiu bilhões da carteira do cidadão comum para o balanço da nova companhia fundida. E o curioso é que essa transferência costuma ser celebrada nas páginas de economia como geração de valor, quando deveria ser nomeada pelo que efetivamente é: extração de renda viabilizada por menor concorrência.
Os defensores da fusão vão recitar o catecismo de sempre. Que escala reduz custos, que logística integrada beneficia todos, que a indústria precisa de players globais para enfrentar a concorrência asiática, que o consumidor no fim das contas ganha. É o mesmo discurso que justificou cada concentração desastrosa do século passado, e que sempre, sem exceção, terminou com lucros privatizados, riscos socializados e o cidadão comum descobrindo, anos depois, que pagou caro por uma promessa de eficiência que nunca chegou ao seu carrinho de supermercado. As coisas que se veem nos relatórios de fusão são as sinergias e as economias prometidas. As coisas que não se veem são os concorrentes que não nasceram, os pequenos produtores espremidos, e os centavos a mais cobrados em cada compra durante a próxima década.
O órgão antitruste americano, esse leão que há tempos não tem dentes para nada, dará seu carimbo de praxe, talvez exigindo a venda de algum ativo simbólico para fingir que houve análise rigorosa. E a vida segue, com mais um setor consolidado, mais um mercado oligopolizado, e mais uma camada de gordura corporativa pesando sobre o orçamento doméstico de quem só queria comer um abacate em paz. Capitalismo não é isso. Capitalismo é concorrência feroz, entrada livre, falência permitida e preço formado por milhões de transações descentralizadas. O que se viu hoje na assembleia foi outra coisa, foi capitalismo de cartório, no qual quem tem advogado bom e lobista melhor escreve as regras e depois cobra pedágio de todo mundo.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.