Os acionistas da First Community Corp se reuniram, votaram, bateram palmas e referendaram aquilo que já estava decidido antes de qualquer um sentar na cadeira. Elegeram os diretores indicados pela própria diretoria e aprovaram os pacotes de remuneração desenhados pelos próprios remunerados. Chamam isso de assembleia. Em qualquer assembleia de condomínio do interior do Brasil há mais contraditório do que numa reunião anual de banco americano de médio porte, e o síndico do prédio ainda corre o risco real de ser destituído por uma senhora indignada com a conta da piscina.

O ritual existe há tanto tempo que ninguém mais pergunta para que serve. O acionista pulverizado, dono de quatro ações compradas via aplicativo de corretora, recebe um material de centenas de páginas, é convidado a votar em pessoas que nunca viu, sobre cifras que não negociou, dentro de regras que não escreveu. Vota sim porque votar não muda nada e votar não custa nada. A passividade não é falha do sistema, é o sistema. Quem desenhou o tabuleiro sabia exatamente onde colocar cada casa.

Siga o dinheiro e o teatro se desfaz. Os conselheiros recomendam a remuneração dos executivos. Os executivos influenciam, direta ou indiretamente, quem entra no conselho. Os grandes fundos passivos, que detêm fatias decisivas do capital, votam quase sempre com a administração, porque brigar custa caro e cooperar é barato. O acionista minoritário entra no final dessa coreografia para legitimar com sua chancela aquilo que já foi combinado entre quem importa. É capitalismo de compadrio em versão liofilizada, embalada com selo de governança e distribuída como produto financeiro respeitável.

O detalhe filosófico que os apologistas dessa engrenagem fingem não ver é simples: quando quem decide o salário é o próprio beneficiário, ou alguém que depende politicamente dele, o resultado é sempre o mesmo desde os tempos dos coletores de impostos romanos. Os números sobem, as justificativas se sofisticam, e os relatórios anuais ficam cada vez mais bonitos com gráficos de barras coloridas explicando por que o presidente mereceu mais este ano. Mereceu segundo quem? Segundo um comitê escolhido por ele. A circularidade é tão descarada que virou paisagem.

Existe um nome técnico para isso na literatura corporativa, problema de agência, como se fosse uma questão acadêmica a ser refinada com mais regulação, mais formulários, mais consultores. Não é. É problema de propriedade diluída demais para ter dono e concentrada demais para ter dissidência. O acionista verdadeiro, aquele que arrisca patrimônio próprio e tem pele no jogo, é uma figura cada vez mais rara na bolsa moderna, substituído por intermediários que administram dinheiro alheio segundo incentivos que pouco têm a ver com a saúde de longo prazo da empresa.

A lição que o caso da First Community oferece, num episódio aparentemente menor e burocrático, é a mesma de mil outros antes e mil outros depois. Estrutura sem freio se autoperpetua. Comitê sem oposição se autorremunera. Voto sem alternativa real é cerimônia, não democracia. E quando a cerimônia substitui o conteúdo, todo mundo finge que está tudo bem até o dia em que não está, e aí descobrem com espanto que o banco tinha menos acionistas e mais funcionários do que parecia.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.