O fato em si é tão banal que merece um bocejo antes da análise. Os acionistas da First Guaranty Bancshares, um banco regional da Louisiana com presença discreta no Texas, cumpriram o ritual anual obrigatório das companhias abertas americanas, elegeram diretores indicados pela própria mesa, aprovaram a remuneração executiva que a própria mesa propôs, ratificaram o auditor que a própria mesa contratou. Democracia corporativa em estado puro, quer dizer, a mesma encenação que se repete em dez mil assembleias todo segundo trimestre, com o mesmo desfecho previsível, com os mesmos sorrisos plásticos no comunicado oficial. Me diz uma coisa, se o resultado já estava escrito antes da convocação, por que ainda chamamos isso de votação?
O detalhe sórdido que nenhum release de relações com investidores menciona é o teatro regulatório por trás dessa coreografia. Bancos pequenos como o First Guaranty existem porque a tabela regulatória americana ainda permite que existam, e existem do jeito que existem porque seguem ao pé da letra um manual escrito por quem detesta bancos pequenos. Cada assembleia anual é menos um exercício de governança e mais um relatório de conformidade endereçado a Washington, com cópia para a SEC, com cópia para o FDIC, com cópia para o Federal Reserve. O acionista médio não decide nada, ele simplesmente assina embaixo de um formulário que diz que tudo foi feito conforme manda o figurino federal.
Olha, o ponto interessante não é o que se viu na assembleia, é o que ninguém quis enxergar. Enquanto os diretores trocavam cordialidades sobre desempenho trimestral, o dólar perdia poder de compra silenciosamente porque uma autoridade não eleita, a centenas de quilômetros dali, decide quanto dinheiro vai brotar do nada amanhã de manhã. Os depósitos que sustentam o balanço do banco rendem fração ridícula daquilo que a inflação real consome. O correntista pensa que está poupando, está apenas sendo trasquilado num ritmo civilizado, dois por cento aqui, três por cento ali, sem nunca enxergar a tesoura.
E aqui aparece a beleza perversa do sistema. Bancos regionais como o First Guaranty captam barato, repassam caro, ganham o spread, distribuem dividendo, e nada disso seria possível sem o privilégio legal de operar como intermediários numa moeda monopolizada pelo Estado. Não estão fazendo nada de errado dentro das regras do jogo, o problema é que o jogo foi montado para que o jogador comum sempre perca. Quem mora numa cidadezinha do Texas e deposita o salário no caixa eletrônico não votou pela política monetária expansionista, não foi consultado sobre a meta de inflação, não recebeu prospecto explicando que sua poupança é combustível para o endividamento federal.
A assembleia anual, então, é apenas o tampo bonito de uma caixa cujo conteúdo ninguém quer abrir. Discute-se o cardápio enquanto o cozinheiro envenena o jantar. Aprova-se a remuneração do diretor enquanto o verdadeiro custo do negócio é repassado, parcela a parcela, ao depositante que sequer foi convidado para a reunião. E como toda peça bem ensaiada, a cortina cai com aplausos protocolares no relatório anual, todos os votos próximos de cem por cento de aprovação, como nas eleições da Coreia do Norte, só que com gravata e champanhe.
Reformar isso não passa por colocar um diretor diferente naquela mesa, passa por encarar a pergunta que nenhuma assembleia bancária jamais colocará em pauta, por que o dinheiro que circula em todas as nossas vidas foi entregue ao monopólio de uma instituição que ninguém escolheu e que ninguém pode demitir. Enquanto essa pergunta continuar fora da ordem do dia, toda eleição de diretor de banco regional será exatamente o que essa foi, um cerimonial elegante para esconder que o verdadeiro voto, aquele que decide o valor do seu trabalho, foi confiscado há mais de um século.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.