Os acionistas da Global Water Resources se reuniram em assembleia anual e elegeram os diretores indicados pelo board, aprovaram a remuneração dos executivos e ratificaram a firma de auditoria. Tudo conforme o script. Nenhuma surpresa, nenhuma dissidência relevante, nenhum sobressalto. O comunicado oficial soa como ata de cartório, e é exatamente isso que é: o registro burocrático de uma decisão que já estava tomada antes de qualquer voto ser computado. Quem acompanha o ritual sabe que assembleia de companhia aberta no setor de utilities raramente é palco de disputa real, porque o jogo verdadeiro não se joga ali.

Olha, é preciso entender o que é a Global Water Resources antes de fingir que estamos falando de uma empresa privada como outra qualquer. Trata-se de uma operadora de água e esgoto no Arizona, ou seja, uma concessionária regulada pela Arizona Corporation Commission, que define quanto ela pode cobrar, quanto pode investir, quanto pode lucrar e até quando pode respirar. O acionista que vota na assembleia tem aproximadamente o mesmo poder real sobre o destino do negócio que o passageiro tem sobre a rota do avião. Pode reclamar, pode aplaudir, pode até descer, mas o piloto continua sendo o regulador.

Quer dizer, o que se vê é uma diretoria reeleita por unanimidade simbólica. O que não se vê é a teia de incentivos que transforma esse tipo de companhia num híbrido grotesco entre iniciativa privada e estatal envergonhada. O lucro é garantido por fórmula tarifária, o risco é socializado via repasses ao consumidor, e o capital político vale mais do que o capital financeiro. Quem manda nesse arranjo não é quem detém ações, é quem detém canetas. E quem detém canetas raramente aparece em comunicado para a CVM americana, porque opera no andar de cima, longe dos holofotes da governança corporativa.

Me diz uma coisa, faz sentido chamar de mercado aquilo que é monopólio territorial concedido por burocrata, com preço fixado por comissão, com investimento aprovado por agência, com retorno calculado por planilha estatal? A linguagem do capitalismo foi sequestrada para legitimar um arranjo que de capitalismo só tem o ticker na bolsa. Água, saneamento, energia, transporte, telecom, tudo isso virou laboratório de uma engenharia que pega o pior dos dois mundos: a ineficiência do controle estatal somada à blindagem jurídica da empresa privada. O consumidor paga a conta dobrada e ainda agradece pelo serviço.

A trilha do dinheiro nesses casos é sempre a mesma e sempre instrutiva. O acionista pequeno embolsa um dividendo modesto e dorme tranquilo. O executivo embolsa pacote de remuneração robusto e bônus atrelado a metas que ele mesmo ajuda a definir. O regulador, esse personagem que ninguém elege e quase ninguém audita, sai da agência depois de alguns anos e reaparece como consultor das mesmas empresas que regulou. É a porta giratória clássica, aquela que faz a fronteira entre regulador e regulado virar mero detalhe de carreira. Enquanto isso, o cidadão do Arizona abre a torneira e paga a tarifa que foi negociada num gabinete onde ele jamais pôs os pés.

Assembleia anual, portanto, é folclore corporativo. O ritual existe porque a lei exige, e a lei exige porque o teatro precisa continuar. Mas a decisão real sobre quanto custa um copo d'água no Arizona não passa por aquela sala. Passa por audiências regulatórias, por lobbies bem pagos, por relatórios técnicos encomendados, por comissionados nomeados politicamente. O voto do acionista é confete. A caneta do burocrata é cimento. E enquanto fingirmos que isso é livre mercado, continuaremos perdendo a guerra antes mesmo de saber que ela está sendo travada.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.