A assembleia da GP-Act III aprovou a extensão do prazo para concluir a tal "combinação de negócios", que é o nome elegante que se dá ao único motivo pelo qual essa estrutura foi criada em primeiro lugar. Quer dizer, levantaram capital de investidores sob a promessa de comprar uma empresa de verdade, dentro de um cronograma fixado em contrato, e agora voltam à mesma plateia pedindo mais tempo porque, surpresa, não acharam ninguém. E a plateia, claro, aprova. Aprovaria de novo amanhã. Porque o desenho do brinquedo é exatamente esse.
Vale entender o que é um SPAC antes de fingir indignação sofisticada. Trata-se de uma companhia de cheque em branco: gestores reputados captam dinheiro na bolsa prometendo que, em até dois anos, encontrarão um alvo privado e o levarão a mercado pela porta dos fundos, sem o rigor de um IPO tradicional. O investidor entrega o dinheiro sem saber o que está comprando. Compra o gestor, compra a aura, compra a fé. O resto é detalhe contratual. E os detalhes contratuais, como sempre, foram escritos por quem ganha dinheiro quando o relógio se estica.
Olha, é aqui que a coisa fica bonita. Enquanto o veículo não acha alvo, o dinheiro captado fica aplicado em títulos do Tesouro rendendo juros, e os patrocinadores cobram suas taxas administrativas como se estivessem efetivamente trabalhando. Estender o prazo, portanto, não é uma derrota. É prorrogação de receita. O fracasso operacional se converte em prolongamento de remuneração. Você captou bilhões, não entregou nada, e ainda assim continua sendo pago para não entregar. Me diz uma coisa: em que outra atividade da economia real esse arranjo seria tolerado por mais de uma semana?
O SPAC é o filho dileto de uma era de juros baixos prolongados, dinheiro fácil e investidores em busca desesperada de retorno onde não havia retorno a encontrar. Quando o crédito é artificialmente barato, o capital perde a referência de risco e migra para qualquer veículo que prometa o glamour de um IPO sem o trabalho de construir uma empresa. Foi o que aconteceu entre 2020 e 2021, no auge da euforia, quando se lançavam SPACs como se fossem panfletos de pizzaria. Hoje colhemos a ressaca: veículos que não acham alvo, alvos que decepcionam, e assembleias que existem apenas para empurrar o problema mais para frente.
A extensão de prazo é, no fundo, um pequeno espelho de tudo o que há de errado na engenharia financeira contemporânea. Cria-se uma estrutura para resolver um problema artificial, vende-se essa estrutura como inovação, e quando ela falha em entregar o que prometeu, a saída não é dissolver e devolver o dinheiro com humildade. A saída é renegociar prazos, prorrogar taxas e pedir mais paciência ao mesmo investidor que já foi enganado uma vez. O que se vê é a assembleia formal. O que não se vê é o custo de oportunidade de bilhões parados, a confiança erodida em estruturas listadas e o sinal de que, no fim das contas, quem desenhou o jogo nunca pretendeu perder.
O capitalismo de verdade tem prazo, tem risco e tem prejuízo quando se erra. O capitalismo de compadrio financeiro tem extensão de prazo, taxa garantida e assembleia complacente. Quando você ouvir falar em "combinação de negócios adiada", traduza: alguém recebeu para fracassar e vai receber de novo para continuar fracassando. O dinheiro tem dono, mas, neste tipo de arranjo, o dono é sempre o último a saber.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.