A Innospec realizou sua assembleia anual e produziu exatamente aquilo que toda assembleia anual de companhia aberta produz nos últimos quarenta anos: a reeleição integral da diretoria proposta pela própria diretoria, a aprovação do pacote de remuneração desenhado pelos próprios beneficiários e o referendo automático dos auditores indicados pelos auditados. Chama-se isso de democracia acionária. Eu chamaria de outra coisa, mas o jornal é família.

Há uma encenação curiosa nesses eventos. Investidores institucionais que detêm pedaços minúsculos votam por procuração seguindo recomendações de consultorias de proxy que, por sua vez, recomendam aquilo que a administração já articulou nos bastidores. O acionista pulverizado, o famoso dono da empresa segundo os manuais de finanças, descobre na prática que é dono da mesma forma que o passageiro do ônibus é dono do trânsito. Tem direito de reclamar, não tem poder de mudar.

O detalhe que merece atenção é a remuneração executiva. Quando um conselho composto por pessoas indicadas pelo CEO aprova bônus para o CEO baseados em métricas escolhidas pelo próprio CEO, estamos diante de um arranjo que, se acontecesse no setor público, seria chamado de toma lá dá cá. Acontecendo no setor privado, ganha o nome elegante de alinhamento de incentivos. O dicionário corporativo tem dessas elasticidades. Siga o caminho dos bônus e você encontrará a verdadeira assembleia, aquela que acontece muito antes da assembleia oficial, em jantares discretos onde as planilhas já vêm prontas.

Não se trata de demonizar a Innospec especificamente. Trata-se de reconhecer que esse modelo de capitalismo gerencial, em que a administração captura o controle efetivo da companhia enquanto recita liturgias de prestação de contas, é uma deformação daquilo que o mercado deveria ser. O verdadeiro acionista, o sujeito que arrisca capital próprio e sente no bolso cada decisão errada, foi substituído por uma cadeia de intermediários, fundos, gestores, consultorias, advisors, todos vivendo do dinheiro alheio e cobrando taxa por isso. O dono original sumiu da fotografia.

O que se vê na manchete é a aprovação tranquila e quase unânime. O que não se vê é o custo invisível de um sistema onde a fiscalização real foi terceirizada para burocracias que vivem da própria fiscalização. O acionista pequeno paga a conta dessa estrutura sem saber, diluído em taxas administrativas, em remuneração executiva inflada, em decisões estratégicas tomadas por gente que não perde nada se a empresa quebrar amanhã. Há paraquedas dourados para todo lado, menos para quem deveria ser o verdadeiro dono.

Reeleger todo mundo, aprovar tudo e bater palmas é fácil. Difícil é admitir que a palavra governança virou fantasia carnavalesca, vestida uma vez por ano para a foto oficial, guardada no armário até a próxima temporada. Enquanto isso, a companhia segue, os bônus pingam, e o pequeno investidor, esse cidadão silencioso, continua acreditando que vive numa república acionária quando na verdade habita uma monarquia hereditária com eleições decorativas.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.