A Insperity, gigante americana de serviços de recursos humanos para pequenas empresas, realizou sua assembleia anual e fez o que toda diretoria faz quando ninguém está prestando atenção: aprovou um aumento no próprio plano de incentivos em ações e reelegeu os mesmos rostos que já estavam na mesa. O comunicado oficial trata o evento como tarefa burocrática, quase administrativa, daquelas que se anuncia entre um café e outro. Mas quem conhece o jogo sabe que assembleia de acionistas pulverizados é teatro montado, com elenco escolhido, roteiro pré-aprovado e plateia anestesiada por aplicativos de corretora.

Olha, a mecânica é sempre a mesma e funciona porque quase ninguém fiscaliza. O conselho propõe expandir o pool de ações destinado a executivos. A administração recomenda voto favorável. Os grandes fundos passivos, que detêm a maior fatia das ações, votam mecanicamente conforme orientação da gestão, porque fundo passivo não tem por que brigar com gestão de empresa que ele nem escolheu deter. O resultado é uma aprovação que parece democrática e na prática é homologação. O sujeito que comprou cem ações para a aposentadoria descobre, no extrato seguinte, que sua fatia da empresa encolheu sem que ninguém perguntasse se ele topava bancar a generosidade alheia.

Quer dizer, ninguém é contra remunerar bem quem entrega valor. O ponto é outro. Quando o próprio beneficiário desenha o plano, escolhe os critérios de performance, define as metas e ainda preside a assembleia que aprova tudo, não estamos diante de incentivo, estamos diante de autosserviço corporativo. As metas geralmente são calibradas para serem batidas. Os vesting periods são generosos. As cláusulas de saída protegem o executivo de qualquer desastre que ele mesmo provoque. Privatizam o ganho, socializam o risco entre os acionistas, e chamam isso de boas práticas de governança.

Me diz uma coisa, qual o setor mais sensível a aumento de custo regulatório nos Estados Unidos hoje? Justamente o de PEO, organizações que terceirizam folha, benefícios e compliance trabalhista para pequenas empresas. A Insperity vive de um ecossistema regulatório complexo que sufoca o pequeno empresário e o empurra para soluções de terceirização caras. Quanto mais o Estado complica, mais empresas precisam da Insperity. Quanto mais empresas precisam da Insperity, mais o conselho se acha merecedor de ações adicionais. Siga o dinheiro até o fim e você descobre que o crescimento da companhia é proporcional ao crescimento do código tributário e trabalhista americano. É simbiose, não mérito.

A assembleia aprovou também a reeleição dos conselheiros, todos confortavelmente reconduzidos, como sempre acontece quando a chapa única é apresentada como inevitável. Auditoria externa renovada, contratos mantidos, sorrisos para a foto. Nenhuma palavra sobre por que a remuneração executiva cresce mais rápido que a produtividade da companhia. Nenhuma pergunta incômoda sobre o efeito diluidor dessas concessões sobre o acionista minoritário ao longo dos próximos cinco anos. Tudo abaixo da linha do radar, embrulhado em jargão técnico, votado em minutos.

O capitalismo de verdade não é isto. O capitalismo de verdade pressupõe responsabilidade do gestor diante do dono. O que vemos em assembleias como essa é outro animal, uma versão domesticada e gerencial em que executivos profissionais extraem renda de proprietários ausentes com a bênção de fundos que não se importam. É legal, é praxe, está dentro das normas, e mesmo assim cheira mal. Porque tudo aquilo que precisa de uma camada espessa de processo formal para parecer legítimo, geralmente, é porque legítimo de verdade não é.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.