Os acionistas da KB Home, uma das maiores construtoras residenciais dos Estados Unidos, se reuniram em assembleia anual e reelegeram todos os diretores indicados, ratificaram o auditor independente e aprovaram a remuneração executiva no famigerado "say on pay". Tudo dentro do esperado, tudo unânime, tudo absolutamente previsível. O tipo de evento corporativo cujo desfecho já estava escrito antes mesmo da convocação ser enviada, porque assim funciona o teatro acionário moderno, onde o investidor pulverizado vota por procuração em nomes que nunca viu para aprovar decisões que não compreende sobre uma empresa cujo balanço ele leu na diagonal, se é que leu.
A pergunta interessante, aquela que nenhum release oficial vai fazer, é a seguinte: por que diabos uma assembleia anual de uma companhia aberta sempre termina exatamente como o conselho previu? Olha, não existe mistério aqui. O sistema de proxy voting nos Estados Unidos transformou a democracia acionária numa formalidade cartorial, onde gigantes da gestão passiva como BlackRock, Vanguard e State Street detêm fatias decisivas de praticamente todas as grandes companhias listadas e votam em bloco seguindo recomendações de duas firmas de assessoria, ISS e Glass Lewis, que basicamente ditam o que é "boa governança" para o capitalismo americano inteiro. Quer dizer, três conglomerados financeiros e duas consultorias decidem, na prática, quem manda em centenas de empresas que empregam milhões de pessoas. E ainda chamam isso de mercado livre.
O caso da KB Home é particularmente saboroso porque acontece num momento em que o setor imobiliário americano está sendo cozinhado em fogo lento pela política monetária do Federal Reserve. Juros hipotecários flertando com os 7%, vendas de casas novas oscilando, estoques crescendo, e a turma da diretoria garantindo seus pacotes de remuneração com bônus atrelados a métricas que eles mesmos ajudam a definir. É o velho arranjo: o CEO indica o comitê de remuneração, o comitê contrata a consultoria, a consultoria recomenda o pacote, o conselho aprova, e o acionista descobre tudo na página 47 do proxy statement com letrinha de bula de remédio.
Me diz uma coisa, alguém ainda acredita que esse modelo de governança protege o pequeno investidor? A construção civil americana viveu uma década inteira de dinheiro barato, juro artificialmente suprimido pelo banco central, crédito hipotecário inflado por subsídios diretos e indiretos via Fannie Mae e Freddie Mac, e construtoras como a KB Home cresceram cavalgando essa onda de liquidez fabricada em Washington. Quando a maré desce, e ela está descendo, descobre-se que parte do "sucesso" gerencial era simplesmente o vento de cauda da impressora monetária. Mas o bônus do executivo continua lá, intocado, porque na hora da bonança o mérito é dele e na hora da crise a culpa é "macroeconômica".
O que se vê é uma assembleia tranquila, diretores reeleitos, auditor confirmado, mercado bocejando. O que não se vê é o custo real desse arranjo: capital alocado de forma subótima, gestão entrincheirada que escapa de qualquer accountability genuíno, e um setor inteiro que confunde competência empresarial com habilidade de surfar políticas monetárias frouxas. A construção residencial americana não está em crise por má gestão pontual; está em ressaca depois de anos bebendo crédito barato como se não houvesse amanhã. E agora o amanhã chegou com a conta na mão.
A próxima assembleia, daqui a um ano, será idêntica. Os mesmos diretores, ou substitutos cuidadosamente escolhidos pelo mesmo grupo, aprovarão pacotes parecidos, ratificarão o mesmo auditor, e o cerimonial continuará. Enquanto isso, a verdadeira decisão sobre o futuro do setor não está sendo tomada na sala de reuniões da KB Home, está sendo tomada num prédio em Washington onde um comitê define o preço do dinheiro para 330 milhões de pessoas. Capitalismo de mercado, dizem. Capitalismo dirigido por bancos centrais, balcões de ETFs e consultorias de proxy, na verdade. O acionista vota, mas quem decide é outro.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.