A notícia chega embrulhada naquele papel celofane das comunicações oficiais: assembleia anual realizada, diretores eleitos, propostas aprovadas, tudo conforme as melhores práticas de governança. Em bom português, traduz-se assim: um grupo de pessoas se reuniu numa sala, levantou a mão para confirmar o que já estava decidido antes da reunião começar, e agora exige que tratemos isso como exercício solene da democracia acionária. Olha, se democracia fosse isso, Cuba seria a Suíça do Caribe.

O que se vê é o ritual. O que não se vê é o arranjo. A Personalis é uma empresa de diagnóstico genômico de precisão que vive do sonho de transformar sequenciamento de DNA em receita recorrente, e que para sobreviver depende em boa parte de contratos com agências federais americanas e seguradoras públicas como o Medicare. Quer dizer, a margem operacional da festa de hoje não saiu do bolso de consumidor algum num mercado competitivo; saiu, em larga medida, da caneta de algum burocrata em Washington decidindo quanto vai reembolsar por exame. E o acionista aplaude como se aquilo fosse mérito empresarial.

Aí está o pequeno truque contábil da modernidade. Quando uma empresa qualquer depende de licitação, de reembolso governamental, de subsídio à pesquisa, de incentivo fiscal disfarçado de política industrial, ela deixa de ser empresa no sentido clássico e vira algo mais parecido com uma concessionária. O capitalismo de verdade é aquele em que o sujeito convence o cliente a tirar o dinheiro do bolso porque o produto vale a pena. O capitalismo de compadrio é aquele em que o sujeito convence o regulador a tirar dinheiro do bolso dos outros para sustentar o produto que talvez não valha a pena. Adivinhe em qual dos dois mundos vivem boa parte das empresas listadas hoje.

Siga o dinheiro e o pano cai. A assembleia ratifica um conselho que aprova um plano de remuneração que recompensa executivos por métricas que dependem, no fim das contas, de decisões políticas sobre cobertura de saúde pública e dotação orçamentária para pesquisa oncológica. O acionista minoritário, esse personagem decorativo das atas, vota em pacote fechado proposto pela administração, num processo em que dissentir custa caro e concordar não custa nada. É a tirania suave do consenso fabricado, vestida de paletó e gravata, com PowerPoint bem diagramado.

E há ainda o aspecto cultural da coisa, que ninguém quer encarar. A linguagem das assembleias modernas, recheada de termos como stakeholders, sustentabilidade, diversidade no board, governança ESG, serve para uma função muito específica: deslocar o foco do que importa, ou seja, lucro real gerado em mercado real, para um teatro moral em que todos saem virtuosos e ninguém é responsabilizado quando o caixa seca. Uma empresa que precisa explicar tanto por que existe geralmente existe por motivos que não convém explicar.

No fim, o investidor que comprou a ação acreditando estar apostando em ciência de ponta deveria fazer a pergunta que a assembleia jamais fará: quanto desta empresa depende do mercado e quanto depende do Estado? Porque se a resposta pender demais para o segundo lado, o que se comprou não foi participação numa companhia, foi um título indireto da dívida pública americana, com volatilidade extra e sem cupom garantido. A próxima reeleição do conselho é certa. A próxima rodada de reembolso, não.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.