A Piper Sandler, banco de investimento de médio porte sediado em Minneapolis, realizou sua assembleia anual e o resultado foi exatamente o que qualquer pessoa minimamente acordada previa antes mesmo da convocação ser publicada. Os diretores indicados pela própria mesa foram eleitos, o auditor que carimba os balanços há anos foi reconduzido, e o acionista que apareceu para votar saiu com a sensação reconfortante de ter participado de uma democracia corporativa que, na prática, funciona como aclamação búlgara dos anos cinquenta. Tudo conforme o roteiro, tudo conforme o figurino.
Quem conhece o mecanismo sabe que assembleia de companhia aberta americana tem tanto de deliberação genuína quanto sessão solene de Câmara Municipal tem de poesia. O conselho indica os próprios sucessores, a administração contrata a consultoria de governança que escreve a recomendação de voto, os grandes fundos passivos votam em bloco seguindo essa recomendação, e o pequeno acionista chega com seus mil dólares de ação imaginando que vai influenciar algo. É o equivalente financeiro daquele plebiscito em que a pergunta já vem com a resposta sublinhada.
Siga o dinheiro e a coisa fica mais transparente. Piper Sandler vive de assessorar fusões, aquisições, emissões de dívida e equity. Cada diretor reeleito traz consigo uma rede de relacionamentos com private equity, com bancos maiores, com escritórios de advocacia que cobram seiscentos dólares a hora. O auditor referendado é uma das quatro firmas de sempre, aquelas mesmas que assinaram balanços de empresas que quebraram espetacularmente nos últimos vinte anos sem que ninguém pagasse pela festa. A reeleição não é prêmio por excelência técnica, é manutenção da arquitetura de favores que sustenta a engrenagem.
O detalhe que ninguém comenta é que essa estrutura existe porque o regulador exige. A Securities and Exchange Commission obriga assembleia anual, obriga divulgação de proxy statement, obriga voto por procuração, obriga rotação simbólica de comitês. O resultado prático dessa regulação supostamente protetora é justamente o teatro elaborado que descrevemos, com custos jurídicos e operacionais que ultrapassam facilmente os dez milhões de dólares anuais para uma empresa do porte da Piper, custos que saem do bolso do acionista que a regulação dizia proteger. A intenção declarada produz o oposto do resultado prometido, como sempre.
Existe alternativa, e ela funciona há séculos em qualquer ambiente onde o capital é dono de fato e não de ficção. Empresa fechada com sócios reais, controle familiar, parcerias com responsabilidade ilimitada. Nesses arranjos, ninguém precisa de assembleia ritual porque o dono está lá todo dia, decidindo, arriscando o próprio patrimônio, demitindo o auditor que mentiu e o diretor que falhou sem precisar convocar trezentas mil pessoas para um espetáculo coreografado. A companhia aberta moderna inventou um problema que não existia para depois vender, via regulação, a solução cara que mantém uma indústria inteira de advogados, consultores e burocratas trabalhando.
O acionista minoritário que sai feliz dessa assembleia é o mesmo cidadão que sai feliz da urna eletrônica achando que escolheu seu destino. Em ambos os casos, o cardápio foi montado por quem não estava na fila, e a ilusão de escolha é justamente o produto que se vende. Governança corporativa virou o nome elegante para esse ritual onde todos fingem decidir o que já está decidido, e o mercado segue funcionando enquanto fingirmos junto.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.