Os acionistas da Prudential Financial se reuniram, votaram e, surpresa nenhuma, decidiram que tudo deve permanecer exatamente como está. Conselho reeleito em peso, auditor ratificado, pacote de remuneração dos executivos aprovado num voto consultivo que, como todo voto consultivo, serve para a empresa dizer depois que ouviu os donos do capital. Ouviu, marcou na ata, e seguiu fazendo o que já tinha decidido fazer antes da assembleia começar. Isso não é assembleia, é confirmação de batismo.

Quem acompanha o ritual societário das gigantes financeiras americanas sabe que essas reuniões anuais funcionam como aquelas eleições de país tropical em que o resultado já saiu impresso antes da urna abrir. O fundo de pensão vota como o gestor manda, o gestor vota como o comitê de proxy advisor recomenda, e o comitê recomenda aquilo que o próprio establishment corporativo desenhou para si mesmo. O acionista pulverizado, esse senhor que teoricamente é o dono da empresa, recebe uma cartilha de duzentas páginas em letrinha miúda e é convidado a clicar em sim. E clica.

Olha, ninguém precisa ser hostil à Prudential para ver o que está acontecendo aqui. O que se vê é uma assembleia tranquila, conselho experiente, governança em ordem. O que não se vê é o custo do arranjo: pacotes de remuneração que viraram redistribuição interna desconectada de performance, conselhos que se autoperpetuam por cooptação, e uma classe gerencial que aprendeu a tratar a empresa como propriedade própria enquanto o capital de verdade vem dos poupadores que confiaram suas aposentadorias a um nome bonito com século e meio de história.

Me diz uma coisa, em que momento decidiu-se que o say-on-pay, esse voto consultivo sobre remuneração de executivos, viraria carimbo automático? A resposta segue o dinheiro, como sempre. Os grandes administradores de ativos detêm fatias colossais de praticamente toda companhia listada, votam em bloco com base em diretrizes internas, e dependem do bom relacionamento com essas mesmas empresas para manter mandatos de gestão de planos previdenciários. Quem morde a mão que distribui mandatos de bilhões? Ninguém com hipoteca para pagar.

O resultado prático é uma estrutura que se apresenta como capitalismo de acionistas mas opera como oligarquia gerencial com verniz democrático. A figura do dono real, aquele cidadão que economizou a vida inteira e pôs uma fração do patrimônio em ações da seguradora, foi diluída em camadas e mais camadas de intermediação até virar abstração estatística. Ele recebe relatório anual, vê gráfico bonito, lê carta otimista do CEO e acredita que isso é o livre mercado em pleno funcionamento. Não é. É um arranjo que sobrevive porque conseguiu convencer todo mundo de que a alternativa seria pior.

Mercado de verdade exige donos atentos, conselhos contestados, remuneração atrelada a risco real e auditores que tremam diante do mandato. Assembleia que reelege tudo por aclamação, ano após ano, com noventa e tantos por cento dos votos, não é sinal de saúde institucional, é sinal de captura silenciosa. A diferença entre uma companhia bem governada e um cartório corporativo está justamente na fricção que existe, ou não, na hora de bater o martelo. Na Prudential desta semana, não houve fricção alguma. E onde não há fricção, há apenas inércia disfarçada de consenso.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.