A notícia chega com a discrição de quem sabe que ninguém vai ler até o fim. A Skyward Specialty, seguradora americana de nicho, realizou sua assembleia anual de acionistas, reelegeu o conjunto de diretores indicado pela própria administração e ratificou a KPMG como auditora independente. Caso encerrado. Próxima manchete. Só que cada uma dessas linhas, lidas com um mínimo de malícia, conta uma história sobre como o capitalismo financeiro contemporâneo aprendeu a se autoperpetuar fingindo que ainda funciona como democracia acionária.

Vamos ao óbvio que ninguém enxerga porque é óbvio demais. A chapa eleita pelos acionistas é, em noventa e nove por cento dos casos, a chapa indicada pelo próprio conselho que está se reelegendo. O acionista pulverizado recebe pelo correio uma cédula com os nomes que o conselho quer que ele aprove, marca o "sim" porque marcar "não" seria como votar contra o próprio time, e devolve. O voto existe, é juridicamente válido, computado por escritórios especializados, certificado por advogados caríssimos. E não significa absolutamente nada. É o mesmo mecanismo da democracia soviética, só que com gravata e bônus em ações restritas.

Quanto ao auditor independente, a piada se conta sozinha. KPMG, Deloitte, PwC, EY. Quatro firmas globais dividem entre si o mercado de auditoria das empresas listadas, contratadas pelas próprias empresas que vão auditar, pagas pelos próprios executivos que vão ter seus números chancelados, sujeitas a serem trocadas se o relatório vier desagradável demais. Independente é um adjetivo curioso aplicado a alguém cujo cheque depende inteiramente de não desagradar quem o assina. Foi assim que Enron passou pela Arthur Andersen, que Lehman Brothers passou pela Ernst & Young, que Wirecard passou pela EY na Alemanha. Independência auditada por quem é auditado. A raposa fiscalizada pelo galinheiro que a contratou.

Mas o detalhe verdadeiramente interessante da Skyward é o mercado em que ela atua. Seguro especialty, ou seguro de nicho, é justamente o tipo de operação que prospera em ambientes superregulados, onde cada nova exigência governamental cria uma nova categoria de risco que precisa ser segurada, e cada nova categoria segurável cria uma nova rentabilidade para a seguradora. Quanto mais o Estado regula, mais a seguradora ganha. Não há ironia maior: empresas que vendem proteção contra o caos regulatório torcem secretamente para que o caos regulatório aumente. E aumenta sempre. Siga o dinheiro e você encontrará seguradoras lobando por mais regras, advogados lobando por mais regras, consultores lobando por mais regras, e o consumidor final pagando a conta de toda essa cadeia produtiva da burocracia.

O acionista pulverizado, esse personagem mítico em nome de quem se faz tudo isso, é o grande otário da peça. Ele acredita estar participando da governança quando assina a procuração em branco para a Vanguard ou a BlackRock votarem por ele. Acredita ter voz quando suas ações estão custodiadas em ETFs cujos gestores votam em bloco segundo critérios que o cotista nunca leu. O dono nominal do capital é o último a saber o que está sendo feito com ele. Lembra alguma coisa? Lembra o cidadão moderno diante do Estado: paga, obedece, finge votar e acha que decidiu algo.

Há quem diga que isso é eficiência. Que assembleias longas e contestadas seriam custo desnecessário, que profissionalizar a governança é progresso, que o pequeno acionista de fato não tem tempo nem competência para opinar sobre questões técnicas. Pode ser. Mas então admitam de uma vez que o capitalismo de companhia aberta deixou de ser propriedade privada no sentido clássico e virou outra coisa: uma tecnocracia gerencial que usa o vocabulário da livre empresa para se legitimar enquanto opera segundo a lógica do comitê. Propriedade sem proprietário, voto sem eleitor, auditoria sem fiscal. Tudo perfeitamente legal, tudo perfeitamente vazio. O capitalismo morre não pela revolução proletária que prometeram, mas por consultoria de governança corporativa.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.